Eu, eu mesmo e meus pesadelos

Salvador Dalí. The Persistence of Memory. 1931 | MoMA

Um dos maiores desafios que tenho enfrentado na vida é agir de acordo com meus princípios e valores. O segundo maior desafio, sem dúvidas é saber quais são estes princípios e até onde eles podem ir sem interferir, ferir ou magoar as pessoas que convivem comigo.

Não tem sido uma tarefa fácil.

Pelo caminho já deixei muita mágoa pelo mundo e sempre quando me recolho para dormir essas mágoas me assombram. Não sou muito religioso a ponto de rezar antes de dormir ou mesmo frequentar cultos religiosos seja qual culto for. Não que julgue estes cultos menos importantes, mas é que muitas vezes tenho vergonha, outras me sinto indigno de frequentar cultos religiosos, por me  julgar falho nas coisas mais básicas relacionadas aos ensinamentos religiosos.

Nem sempre amo meu próximo e incontáveis foram as vezes que tive ódio de vários. Quando era pequeno fiz planos mirabolantes de perseguição a colegas de colégio. Bati em alguns e tenho vergonha infinita quando me lembro disso até hoje. E esses momentos não se apagam da memória. Os bullyings, as brigas, as ofensas e tudo mais de inadequado que fiz em meus tempos de colégio me vem à memória de uma forma tão nítida e detalhada que é como reviver o momento. E isso, podem acreditar, é de um sofrimento sem precedentes. Reviver.

Ainda na faculdade participei do trote. Humilhei as pessoas, fiz muita coisa errada, ofendi, rebaixei, xinguei, tratei com desdém, zombei de características físicas… Até hoje quando lembro dos anos de faculdade, esses momentos me remetem a uma versão de mim mesmo que não se parece nada comigo.

Mas essa versão sou eu. Não foi outro quem fez tudo isso no colégio ou no trote da faculdade, era eu. Já tentei alegar imaturidade, em minha própria defesa, mas não consegui. No fundo eu sempre soube que era errado. E sempre sabemos quando algo é errado. Já fiz de tudo para suprimir esse sentimento de culpa, mas ele não some.

Tento lembrar de determinadas passagens importantes da minha vida e muitas vezes não consigo. Mas naquelas vezes em que consigo a memória não é tão real comparada com as falhas morais que cometi. Sempre penso que esse é o verdadeiro castigo, não esquecer e ainda reviver os erros que cometemos.

Depois da faculdade a falhas continuaram. Aqui e ali fazendo bobagens, deixando traços de mágoas pelo caminho e seguindo em frente. Mas tenho percebido que cheguei a um ponto em que mesmo pequenas bobagens passaram a me incomodar. Parar em local proibido, furar fila, não devolver um troco a maior…

Você deve estar pensando que estou paranoico ou me cobrando demais, não é mesmo? Afinal de contas não há nada demais em parar alguns minutos num local não permitido. Troco errado? Que nada! Esses empresários e donos de estabelecimentos comerciais já lucram demais, esse troco não fará a menor diferença. Errado!

Talvez sejam os efeitos da idade. Estou mais velho agora, cheguei à metade de meu tempo aqui neste mundo, isso se não tiver nenhuma antecipação programada pelo acaso, destino ou designo. Muitos dizem que experiência e idade trazem sabedoria. Pode ser que já tenha sofrido punições demais todas as noites antes de ir dormir. Mas o fato é que meus fantasmas ainda parecem determinados a me assombrar.

Salvador Dalí: Dream Caused by the Flight of a Bee Around a Pomegranate One Minute Before Awakening (1944)

A tarefa não é simples. Esquecer não é simples como apertar o botão delete e apagar um arquivo. Esquecer não é sobre fingir não lembrar. Os rastros e as marcas de minhas besteiras estão circulando pelo mundo. E num domingo qualquer, inesperadamente encontro com um deles e tudo volta à memória. E lá estão novamente as lembranças. Lembranças que são revividas, mágoas que reaparecem e noites de sono ainda mais assombradas.

Certa vez terminei um relacionamento que mal havia começado. O motivo? Não sei, mas chegue a desconfiar ser algo relacionado a minha imaturidade à época, mas como já disse, no fundo eu sempre soube muito bem que o motivo não era esse.

Simplesmente eu achava que a pessoa não era boa o bastante para mim. Tenho vergonha de mim mesmo sempre que lembro dessa história. Quero voltar atrás e contar o real motivo para a pessoa. Quero dizer que eu era um idiota, um babaca e que naquele momento estava mesmo era sofrendo de uma espécie de ilusão de que eu poderia ser melhor do que alguém. A verdade é que eu era uma das piores pessoas do mundo. A verdade é que eu estava cego. Acreditava ser superior quando na verdade era muito inferior.

Mas a pessoa nunca soube disso. E sempre penso em como ela deve ter se sentido mal, magoada com a situação, assombrada pela rejeição desmotivada e sempre explicação aparente. Isso foi há mais de 20 anos e ainda me consome e me assombra todas noites. Hoje sofro porque todos os dias sou lembrado de minhas falhas de caráter. Por mais que me esforce para ser uma pessoa melhor e correta hoje, isso não apaga as besteiras que fiz no passado.

As pessoas perdoam, mas não esquecem. Nem que ofendeu nem muito menos quem foi ofendido esquece! Não esquecer é sem dúvida a grande penitência!

Outro dia encontrei com uma dessas pessoas que magoei andando pela cidade. Juro que tive vontade de parar a pessoa e pedir desculpas. Novamente faltou coragem. Novamente revivi nitidamente o momento. Novamente fui assombrado pela memória de uma pessoa que tento não ser. Novamente fui confrontado com um eu que não deveria ser eu.

Novamente não consegui esquecer. Novamente não consegui me defender. Eu sempre soube que magoaria essas pessoas. Eu sempre soube que era errado. Mesmo assim eu fiz tudo que relatei acima. Mesmo assim eu magoei, mesmo assim eu humilhei. Mesmo sabendo fiz tudo errado.

Esse é um dos motivos que me inquietam e assombram todos os dias. Não! Nem sempre consegui ser quem gostaria de ser. Nem sempre consegui agir corretamente. Nem sempre passo meus dias sem magoar as pessoas. Nem sempre admito meus erros. Nem sempre…

Sim sou eu esse aí. Não tenho defesa, não tenho álibi. Sou réu confesso.

Tendo me reabilitar, me esforço na esperança de que quanto mais distantes os erros estiverem, menos eles retornem. Apagar, sei que nunca serão ser apagados. Torço apenas para que eles fiquem velhos e passem a me assombrar cada vez menos.

Ademais, apesar da dificuldade, apesar de rezar pouco antes de dormir, apesar de ir cada vez menos a cultos religiosos… tenho seguido de forma simples determinado código moral. Não sei se estou sofrendo de perda de memória ou alguma doença que bloqueie atitudes incorretas que faço, mas o fato é que faz algum tempo que não tenho fantasmas novos me assombrando antes de eu pegar no sono.

Lá estão retornando sempre os mesmos, me fazendo, reviver sempre os mesmos episódios e sofrer com eles. Talvez seja essa a verdadeira penitência pelos pecados que fazemos, ou quem sabe, talvez estas memórias estejam apenas aguardando meu pedido de perdão?

Bom livro,mas…

Um livro de angústias e angustiados. Varias narrativas e varias angústias diferentes.

O marido e pai condenado e distante, a mulher sofrendo a ausência até o ponto mais extremo que uma ausência pode chegar. Uma filha que enxerga e percebe tudo, sabe sobre de muitas coisas e nada de outras. Pensa decifrar o mundo e as pessoas, mas perde ou negligência a análise de sua própria situação.

E ainda, essa mesma filha, se mostra distante é indiferente a mãe, um caso em que mesmo explicado por ela mesma, não chega a bastar como explicação de seu comportamento.

Temos ainda um outro pai, este, também avô, que se sai bem e tenta vencer as angústias e por isso mesmo é uma personagem mais leve e sereno que condiz com sua condição de mais velho e experiente e também com sua religiosidade.

Faltou alguém? Ah sim, claro!

Todo livro deve ter um algoz e este não é diferente. A história mostra claramente não um, mas dois!

Quem são?

Um é o Outro e o outro, na verdade é A Outra. E talvez essa outra seja de certa forma tratada com distanciamento exatamente por isso.

Será?

Bem, um livro interessante, ligeiro é fácil de ler, que confirma a tese de que coisas não ditas são muitas vezes melhores do que aquelas que foram ditas. 

Vale a leitura para quem quer algo rápido para ler e pouco complexo. Esse é o grande mérito do livro, porque do ponto de vista de pano de fundo histórico dos acontecimentos da ditadura uruguaia, pouco serve para entender o contexto e não há tampouco referências históricas bem marcadas.

Grifo nosso

“Acreditam que a nostalgia só tem a ver com céus e árvores e mulheres. No máximo com militância política. A pátria, enfim. Mas eu sempre tive nostalgias mais cinzentas, mais opacas. Essa por exemplo. O caminho de volta para casa. Uma tranquilidade, um sossego, saber o que vem depois de cada esquina, de cada sinal, de cada banca de jornal. Aqui, em compensação, comecei a caminha e me surpreender. E a surpresa me fatigava. E ainda por cima, você não chega em casa mas chega à residência.


(Primavera num espelho partido de Mario Benedetti, pág. 17 e 18)

“É possível que se entedia com a eficiência, mas em geral os patrões e gerentes se entediam muito mais e mais rápido com a ineficiência.”


(Primavera num espelho partido de Mario Benedetti, pág. 47)

“Fechar os olhos. Como queria fechar os olhos começar de novo e abri-los depois com a tardia lucidez que trazem os anos, mas com a vitalidade que não tenho. Deus dá nozes a quem não tem dentes, mas antes, muito antes, deu fome a quem os tinha. Bela trapaça de Deus. Afinal os refrões populares são algo assim como um currículo divino. Deixa estar que a mão de Deus vai te pegar de jeito: virulência e fúria. Deus os cria e eles se juntam: conspiração e perseguição. A Deus o que é de Deus e a César o que é de César: partilha e pro rata. como Deus manda: prepotência e império. Deus passou longe: indiferença e menosprezo. Fé em Deus e cacete no resto: parapoliciais, paramilitares, esquadrões da marto, etc. Se Deus quiser: poder ilimitado. Deus nos livre e guarde: neocolonialismo. Deus castiga sem pau nem pedra: tortura subliminar. Vá com Deus: más companhias.

(Primavera num espelho partido de Mario Benedetti, pág. 71)

“… ninguém sabe quem é realmente, quão incenerável ou incombustível é, até passar por uma fogueira.”

(Primavera num espelho partido de Mario Benedetti, pág. 100)

“… não há maior antídoto contra a frustração do que a sensação de utilidade.”

(Primavera num espelho partido de Mario Benedetti, pág. 185)

“… erro logo existo disse certa vez santo agostinho ao errôneo.”

(Primavera num espelho partido de Mario Benedetti, pág. 218)

“… pior surdo é o que quer ouvir.”

(Primavera num espelho partido de Mario Benedetti, pág. 225)

Livro: A Velocidade da Luz

A velocidade da luz by Javier Cercas

Foto do livro, edição TAG Experiências Literárias

Confesso que iniciei a leitura de forma bem despretensiosa. A contracapa, não sei bem o motivo, não me despertou muito interesse, mas por ser uma indicação venda do Clube do Livro da TAG… Claro que tem um peso maior e assim, mesmo desconfiado e sem saber ao certo se teria fôlego para terminar, iniciei a leitura.

Como sempre acontece com leituras que a princípio não me conquistam de imediato, inciei a leitura de forma apressada para que, caso não gostasse, partiria logo para outro título, afinal de contas o tempo é escasso, né pessoal?

A leitura foi meio arrastada de início, fruto talvez do peso extra de não me ter me sentido atraído pelo livro logo de imediato. Vale a ressalva de que quando falo em atração, me refiro ao texto que compõe a contracapa. Isso porque em termos de projeto editorial, qualidade gráfica e design, o livro sem dúvidas é impecável.

Como já havia avaliado lá no meu perfil do Goodreads, link baixo, segue o comentário que fiz por lá:

Uma narrativa muito bem construída e que reserva um final surpreendente. Javier Cercas proporciona no livro A Velocidade da Luz uma experiência única e termina colocando o leitor na narrativa de uma forma ainda mais veloz do que aquela expressa no título do livro.
Sem que deixe transparecer até as últimas frases, o livro nos envolve a ponto de que, ao final, sentimos estar juntos aos personagens participando da conversa que encerra o livro. Uma experiência imersiva, um narrador envolvente, enigmático e sedutor. Um livro para lamentar terminar de ler.

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Como viram pela leitura do meu comentário acima, gostei bastante do livro. A opinião mudou ao longo da narrativa, mérito do narrador certamente.

Meus destaques de citações seguem abaixo:

“Por mais que nos empenhemos, as mentiras não alteram a verdade…”

A Velocidade da Luz de Javier Cercas – pág. 19

“Num romance, o que não se conta é sempre mais importante do que aquilo que se conta.”

A Velocidade da Luz de Javier Cercas – pág. 54

“Não existe escritor que não tenha começado escrevendo um lixo como este, ou até pior, porque, para ser um escritor decente, nem é preciso ter talento: basta um pouco de esforço.”

A Velocidade da Luz de Javier Cercas – pág. 56

“Talvez ninguém esteja vacinado contra o sucesso; talvez todos nós precisemos ter bastante paciência com o fracasso para sermos apanhados pelo sucesso.”

A Velocidade da Luz de Javier Cercas – pág. 57

“Oscar Wilde dizia: Há duas tragédias na vida: uma é não conseguir o que se quer. A outra é consegui-lo.”

A Velocidade da Luz de Javier Cercas – pág. 58

“Todo mundo olha para a realidade, mas poucas pessoas a veem. Artista não é quem torna visível o invisível (isso sim que é romantismo, embora não da pior espécie); artista é quem torna visível o que já é visível e que todo mundo olha, mas ninguém pode, ou ninguém sabe, ou ninguém quer ver.”

A Velocidade da Luz de Javier Cercas – pág. 59-60

“… palpava-se o medo em toda parte, como uma epidemia.”

A Velocidade da Luz de Javier Cercas – pág. 87

“Também não entendem que uma é o sentimento e outra é o sentimentalismo, e que o sentimentalismo é o fracasso do sentimento.”

A Velocidade da Luz de Javier Cercas – pág. 143

“Sabemos que, desde que o mundo é mundo, os sábios aconselham a encarar o sucesso e o fracasso com o mesmo gesto indiferente, a não se ufanar com a vitória nem se aviltar chorando a derrota, mas também sabemos que até eles ( ou principalmente eles) choraram, e se aviltaram, e se ufanaram, incapazes de observar esse ideal magnífico de impassibilidade, e que por isso mesmo aconselhavam persegui-lo, por saberem melhor do que ninguém que não há nada mais venenoso que o sucesso nem mais letal que a fama.”

A Velocidade da Luz de Javier Cercas – pág. 164

“Costuma-se dizer que quem recusa um elogio é porque quer dois.”

A Velocidade da Luz de Javier Cercas – pág. 164

“Uma vez ouvi alguém dizer, … quando a pessoa se mete numa guerra, o mínimo que pode fazer é ganhar, porque, se perder a guerra, perde tudo, até mesmo a dignidade.”

A Velocidade da Luz de Javier Cercas – pág. 212

Ufa! Foram muitas marcações nesse livro, e isso é sinal de que ele trouxe, além da ótima experiência de leitura e entretenimento, excelentes ensinamentos e reflexões. Enfim tudo aquilo que realmente num livro, ou melhor dizendo, tudo aquilo que é função primordial de um livro: entreter e ensinar.

Espero que tenham a coragem de se lançarem na leitura de A Velocidade da Luz e se o fizerem, espero que digam aqui o que acharam da viagem! Até mais pessoal!

Limonov

LimonovLimonov by Emmanuel Carrère

Não gostei. Essa foi apenas a primeira impressão que tive ao iniciar a leitura de Limonov de Emmanuel Carrère. E essa impressão não parece ter sito à toa. As primeiras páginas são meio arrastadas inseridas num contexto completamente estranho para mim até então. Os personagens são desconhecidos e também o ambiente. Referências são entendidas, porém igualmente estranhas.

Mas essa impressão ruim aos poucos vai passando. À medida que a história vai se desenrolando, fui conhecendo traços da personalidade de Limonov que são fascinantes. As suas misérias quando a busca, por vezes irascível, em se tornar o herói que sempre sonhara o leva a decisões e ações que parecem uma mistura de comportamentos esquizofrênicos e obsessivos compulsivos.

E a história vai se desenrolando e em algum ponto, mesmo após muitas demonstrações de comportamentos autodestrutivos, acabei me identificando com Limonov. É interessante como suas histórias vão fazendo mais sentido e como em algum ponto da leitura, que não consigo precisar, passei da repulsa à identificação com ele. A recusa de Limonovo e se tornar uma pessoa medíocre talvez explique essa transição durante a leitura.

Ao fim minha opinião mudou. O livro foi espetacular! A experiência de vida e os relatos daquilo que fora na verdade o regime socialista soviético chocam e fascinam quando relacionadas à trajetória de vida dos personagens. Sem teorias, sem elucubrações filosóficas, mas com relatos de casos reais da rotina de quem não era apadrinhado pelo regime socialista e sofria com as exceções e onde a liberdade esteve longe ser uma realidade.

Ao final um momento mágico onde são tratados os anos de prisão de Limonov. Um período como ele mesmo reconhece e que, por incrível que possa parecer, o enobrece ainda mais. É complexo explicar como períodos de prisão podem enobrecer alguém, especialmente para um brasileiro, haja vista nosso mais que precário sistema prisional. Mas é isso que acontece com Limonov. A prisão e talvez o reconhecimento de estar limitado ao bloco de anotações, os passeios externos e as paredes da sua cela, deixa a impressão de ter sido o momento onde Limonov só se ocupou apenas dele mesmo. E esse momento ele aproveitou magistralmente.

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Envelhecer é um exercício de humildade.

envelhecer

Após mais um aniversário é estranho imaginar que de alguma forma estou a cada dia com menos tempo. Ainda mais estranho é pensar que, por mais que me esforce e que siga com rigor todo conhecimento produzido pela humanidade sobre longevidade, não me é possível definir nem muito menos gerenciar quanto tempo ainda me falta por aqui.

Chegar aos trinta e sete anos e ter que reconhecer minha impotência perante o tempo não é uma situação das mais confortáveis, admito. No entanto reconhecer essa impotência é de certa forma, acalentador.

Com o passar dos anos, além de aceitar o designo do tempo vou aceitando uma infinidade de outras limitações. Não pense que esteja triste com isso, pelo contrário. Nascemos e como textos bíblicos ilustram, somos como Deuses. Desde o início até certa altura da vida um sentimento de arrogância e excesso de confiança tomou conta de mim.

E a vida ia passando e cada vez mais confiança e arrogância iam se acumulando. Sempre fui razoavelmente bom escola. Era suficientemente bom em alguns esportes a ponto de não ser um dos últimos escolhidos para os times e nem ficava muito na reserva. nunca fui galã, mas posso dizer que tive meus momentos. Jogava vídeo game bastante e a prática me levara a ser muito bom em alguns jogos.

É fácil perceber que todo o excesso de confiança ia se acumulando com experiências onde a prática e a dedicação transformavam todo o esforço em bons resultados para mim. Felizmente fui acumulando bons resultados também quando saí do segundo grau e fui para a faculdade. Lá pude desenvolver exponencialmente muitas habilidades e conhecimentos. A faculdade passou e a espiral continuou em ascendência na vida profissional, onde não posso me queixar dos resultados que ainda venho colhendo.

Apesar de reconhecer, de maneira bem sóbria, meu caminho até aqui e os bons resultados até aqui é estranho ter também que reconhecer que não terei tempo suficiente para tudo que gostaria de realizar.

Envelhecer é um exercício de humildade!

Envelhecemos e temos que aceitar, de maneira bem sutil e gradual, que não seremos mais prodígios que colecionam vitórias. O tempo vai passando e ele não é um mero contador que registra a passagem dos dias. O tempo leva com ele parte de nós.

O tempo vai passando e inevitavelmente teremos que reconhecer humildemente o avanço de nossas limitações. Já não é simples fazer determinadas tarefas, nem estudar e lembrar de tudo de estudou.

Vão passando os anos e vejo que é possível que não aprenda algumas coisas que gostaria muito de aprender. Não sei se terei tempo para fazer aquele curso de história da arte, ou de ler e entender as óperas famosas de Verdi e Rossini. Não parece haver tempo para estudar história da humanidade, um projeto antigo onde gostaria de estudar década por década tudo que aconteceu no mundo nas artes, nas ciências, na economia, filosofia e política.

Parece que também não terei tempo de ler todos os livros que tenho na biblioteca, embora meu tempo de leitura tenha aumentado muito ao longo dos anos. Também é possível que não tenha tempo para reler livros marcantes como 2666 de Roberto Bolaño e Em Busca do Tempo Perdido de Marcel Proust. Também não conseguirei escrever sobre tudo que gostaria, apesar de atualmente escrever cada vez mais.

Mas não quero que pensem que este é um post onde entrego os pontos. Nunca tive vocação para depressão, mas ao contrário sempre tive muita vocação para o inconformismo. Este post é também sobre inconformismo.

Não vou aceitar toda a limitação que o tempo tenta me impor! Me recuso a aceitar que nesse jogo vou ficar na reserva e participar apenas em determinados momentos. Não! As limitações vão chegando e junto com elas uma certa dose de sabedoria vai se formando. Não aquela sabedoria de ter conhecimento sobre algo. Mas a sabedoria de saber escolher.

Humildemente vou reconhecendo que realmente não haverá tempo para tudo. Então, ao contrário de pensar em travar uma batalha irracional com tempo, vou mesmo é repensar onde estão minhas prioridades. A palavra de ordem é humildade.

Humildade para reconhecer que pode faltar tempo para tudo que gostaria de fazer, não pode faltar, no entanto, é discernimento para decidir aquilo que é importante fazer antes do dia em que farei a viagem. Algumas prioridades já me são muito claras: passar tempo com a família, estar mais próximo de minha filha, concentrar meu caminho profissional para as áreas que gosto aplicando tudo nas empresas que participo, ler mais, escrever mais e ter paciência para aceitar que alguns “jogos” não serei mais titular, mas poderei ser um excelente reserva a ser escalado para momentos decisivos.

Ainda há muito o que aprender e contribuir. Se a partir de hoje não sobrar algum papel de protagonista, terei humildade para desempenhar o melhor papel de coadjuvante que puder. E aqui fica o recado: pode ser que como coadjuvante eu ainda roube muita cena por aí.

Feliz trinta e sete para mim!

Seja saber

capa-tenso-seja-saber

Chegou para trabalhar.

Outro dia sem parar.

Nada a reclamar,

Apenas mais um rosnar.

Revoltoso e inconformado,

Presta-se à prece diária do lamento.

Anos a esperar por algo reformado.

Infinitas insistências.

Investimento mal remunerado.

Indecências.

Jogo jogado.

Apenas mais um dentre outros.

Um apelo desesperado.

Onde foi parar a ambição motivante?

Porque a apatia inebriante?

Faça mais por si mesmo.

Estude.

Entenda.

Aprenda.

Retire a venda.

Ambicione mais saber.

Dinheiro tem hora.

Que não venha dinheiro agora.

Que se dane!

Seja agora.

O tempo recompensa a quem o ignora.

Seja agora.

Seja!

Testando limites

Picture of sunset, Cotswolds, England March 2005

Até hoje nunca havia parado para pensar em meus limites. Não em limites físicos, mas sim em limites profissionais. Não quero expor velhas mazelas sobre os limites da capacidade humana, muito menos sobre os limites de aprendizado e interesse em renovar conhecimentos e inovar como profissional.

Hoje o fato de estar questionando meus limites, está diretamente ligado aos limites psicológicos. Entendam limites psicológicos como o limiar de situações em que simplesmente parece ter havido um bloqueio, paralisando não apenas ações. A paralisia fora maior. Me vi incapaz de acreditar na solução, ou melhor, de acreditar que poderia haver solução. Fui tomado por uma descrença sem limites, um pessimismo atroz. Perdi por alguns minutos a esperança.

Não cheguei a perder a cabeça, ufa! Mas tenho plena consciência de ter chegado a um extremo perigoso.

Acredito que a capacidade de gestão e de liderança vem da inteligência técnica mesclada com a emocional. Um dá suporte ao outro e no fim, a soma de ambos dita o quanto de resultados podemos entregar para a equipe, para a sociedade e para a empresa.

Hoje por um momento, parece que perdi o horizonte. Parece que passei a enxergar de forma turva. Simplesmente não conseguia processar a informação e transformá-la em ação. Não conseguia mais acreditar que poderia dar certo. Perdi a capacidade de sentir e de esperar que algo poderia ser diferente e que em algum momento eu poderia encontrar a saída para a situação à qual enfrentava.

Paralisado, segui em frente. Segui da melhor forma que pude, dando a melhor solução que encontrei no momento, mas continuava cético sobre a efetividade. Não conseguia acreditar que daria certo.

Em seguida, ainda meio atordoado, parei para refletir. O pessimismo se instaurou.

Percebi que estamos enfrentando uma crise de valores. Pregamos valores que não são compartilhados verdadeiramente pelas pessoas que convivem conosco em sociedade. Pressupomos a correta conduta dos líderes e das pessoas, mas somos assaltados a todo momento com denúncias de desvios de conduta e inadequações de conduta moral deles perante a o ambiente social.

Vejo a todo momento pessoas pensando exclusivamente em seus próprios interesses, comprometendo o ambiente e criando uma cultura egoísta e egocêntrica que trabalha exclusivamente para fomentar o favorecimento pessoal. O sentimento de grupo, de equipe ou de time fora substituído pelo projeto pessoal. As ambições não envolvem a coletividade, mas sim e apenas o individual. Nesse caminho a sociedade se esfacela e a cultura devia-se.

Afinal como tratar um ambiente de convívio social em que cada um pensa e age apenas com objetivos próprios?

Sim, este foi um duro teste dos limites psicológicos. Cansei desse falso moralismo. Cansei de ver os discursos falsos. Cansei das exceções, dos favorecimentos, dos jeitinhos. Cansei de ver de ouvir discursos ao estilo: “Faça o que eu digo, mas não o que eu faço!”.

Esse é o atual estágio das coisas por aqui. Críticas e indignações com governantes não passam de discursos vazios. A revolta contra corrupção, desonestidade, bandidagem, favorecimentos e tantos outros problemas, ofendem não por serem errados ou ilegais, nem ao menos por serem desvios morais graves. As ações e desvios morais indignam porque foram levadas a cabo pelo outro. No fundo a indignação é menos pelo desvio moral ou ilegal e mais por não participar ou tirar proveito dos favorecimentos e ilegalidades.

No fim, é tudo inveja! Nada de indignação, apenas inveja!

As vezes penso que se ao maior indignado fosse oferecida a oportunidade, ele se revelaria e veríamos neste momento apenas um retrato diferente do mesmo objeto. Então extasiados perceberíamos que a foto mudou, mas a imagem decodificada permanece a mesma. Mais do mesmo.

Enquanto isso continuaremos sendo testados. Sofreremos a todo momento com oportunidades para mostrar que a foto tirada de nós é diferente. Para isso precisamos retomar algo que hoje parece meio fora de moda e está em muitos casos caindo em desuso: a conduta moral ilibada.