Mês: abril 2010

[Conto] Sobre infância e ladrões

Mais um ano se passara trazendo com ele a data tão esperada por aqueles dois amigos, parentes e irmãos. O feriado que compreendia natal e ano novo há muito se transformara na data mais importante para a família toda e este ano não seria diferente. As ligações tão escassas durante todo ano, agora são intensas de tal forma que consomem boa parte do tempo livre de todos envolvidos com os preparativos da grande noite.

Ale se apressa em candidatar-se a cuidar de toda bebida necessária para os dias de festa. Cultivando o hábito desde a adolescência Ale tornara-se algo muito próximo a um alcoólatra, observação restrita somente aos meus pensamentos, claro. Afinal sempre me preocupara o fato de ter sido eu, um dos grandes parceiros de álcool quando de nossas noitadas intermináveis. Noites únicas aquelas. Conversas e situações inesquecíveis, sem dúvida.

Já passara das onze horas daquela noite quando meu telefone tocara. Insistente me fez vencer a preguiça, largar a cama, deixar a leitura de lado e ir atender. Sempre tive problemas com telefonemas fora de hora e dessa vez não foi diferente.

– Alô

­- Cabral?

– Oi

– Oi Cabral tudo certo?

– Tudo certo Aleeee. A que devo a ligação no meio da madrugada, hein mano?

– É que estive pensando se neste ano faremos ceia ou churrasco.

Entediado com as perguntas tresloucadas de Ale respondi em tom seco, na esperança de que ele entenderia que eu não queria conversa aquela hora.

– Mas Ale todos os anos desde que aprendemos a respirar fazemos churrasco nas festas de fim de ano! E você ainda continua e me perguntar isso mesmo após, sei lá uns 38 anos?

– É que fico meio tenso, sabe. Os preparativos consomem minha cabeça e enquanto não chega o dia não paro um segundo sequer de pensar.

– Tá bom eu entendo, mas por favor tente pensar mais cedo e veja se me liga mais cedo também, pois afinal feriado ainda está longe e eu tenho muito que trabalhar até lá.

– Tá bom rabugento! Depois nos falamos com calma então. Veja se vai dormir logo para melhorar esse humor.

– Vou pensar em seu caso, ok? Boa Noite!

– Boa noite, mala.

Ao desligar o telefone, fiquei por alguns segundos com pesar, mas logo me lembrei que Ale já estava calejado com minhas rabugices e que não guardaria mágoa de minhas punhaladas. Volto então para cama e para o livro. Recomeço de onde parei e percebo que não me lembro dos acontecimentos do início do capítulo. Volto então ao começo, mas antes me vem um flash. Lembro-me dos projetos antigos de escrever um conto. Penso em possíveis histórias, nenhuma boa o bastante ainda para merecer um livro ou um conto que seja. Desanimado mais uma vez, volto a ler e então em um de meus sincronizados cochilos… Desperto assustado tendo sonhado com a história perfeita.

– PERFEITA!!!!!!

Gritei de entusiasmo e num súbito, misto de euforia e excitação, pulara da cama para o computador e começara a rascunhar apressado. Nem conseguira descrever o que fiz naquele momento. Um esquema?, Rascunho? Notas? Seja o que for estava eu ali escravizado pela ideia. Foi então que percebi que algo mudara dentro de mim naquele momento. A angústia passara, sentia mais intensamente tudo, cores tornaram-se mais vivas, sons mais intensos e puros. Inesperadamente e ligeiro, naquele exato momento algo em mim se transformara.

Rascunho pronto, ideias no papel, rabiscos, cores, anotações no computador e depois anotações a mão, num momento saudosista, sei lá. Tudo fervilhando, coração acelerado não conseguiria acalmar-se e dormir em paz mais naquela noite. Então separei mais uma caneca de cappuccino e voltei a escrever. A história, perguntarão os leitores… Ah sim a história, querem saber qual a história me escolheu? Contarei mas não agora e nem de uma só vez. A história perfeita será contada aos poucos e também aos poucos me deliciarei com ela. Por enquanto, após tudo anotado o cansaço retorna, lembro-me da conversa com Ale. Lembro que tenho muitos dias até o feriado. Então satisfeito em ter sido tocado pela história perfeita, vou dormir. Amanhã tem mais.

Bem vindo Rio de Janeiro

Confesso que para mim é bem complicado na grande maioria das vezes mudar de opinião sobre algo. Aceito essa limitação como um desafio, algo que sempre busco aperfeiçoar em mim. Sempre de maneira muito tranquila vou cedendo às tentações e com isso derrubando importantes pilares construídos com insanidade de primeira por mim durante anos.

Mas hoje um dos grandes pilares em mim cedeu. De maneira que nem mesmo eu poderia sequer imaginar o pilar desabou com tudo e dele não sobrou sequer pó. Há muito venho reclamando categoricamente que a violência no Rio de Janeiro me impingira um limitador. Mas qual seria esse limitador? Sempre me senti pouco a vontade quando de minhas vindas ao Rio de Janeiro e tinha em minha cabeça uma espécie de limitador que hoje considero como meramente psicológico e até certo ponto até imaturo. O fato, puro e simples é que nunca me permiti ficar tranquilo no Rio. Sempre aquela sensação de que algo poderia acontecer a qualquer momento, sempre uma sensação de insegurança, algo meio paranoico, mesmo.

Surpreendido com o convite para retornar ao Rio a passeio em visita a amigos muito próximos e queridos me vi preso a minha própria loucura e infantil, temi mais uma vez pela minha segurança. Como um estalo, porém acordei já no dia da viagem e sem pensar muito comecei a preparar as malas para seguir viagem.

Seguindo um ritual próprio que criei para arrumar toda mala de viagem, iniciei a separação das roupas e acessórios e fui arrumando-os sobre a cama. Tudo certo conferido e checado, agora vinha a parte fácil: encher a mala. Após as malas prontas, fui acometido pela insegurança mais uma vez. Estava de partida para o Rio! Separei inconscientemente telefone, aliança, e todos os demais gadgets e coloquei de lado. Coloquei tudo de lado, certo de que seria no mínimo insanidade levá-los ao Rio.

Então fui tomar café e lendo o jornal parei também subitamente e comecei a refletir. Aquilo não poderia estar correto, como viajar sem nenhum gadget? Senti como se estivesse indo pegar uma carruagem, parecia ter voltado no tempo. Nada de celular, notebook, câmera digital ou qualquer outro item tecnológico. Foi então que disse a mim mesmo: Assim não dá! Não vou viajar assim!

Lembrei-me quase que instantaneamente de uma palestra em que o orador dizia que devemos perder nossos medos, devemos agir de forma madura diante dos problemas. Veio um flash também da cena do recente filme sobre Chico Xavier em que ele se desespera mediante a turbulência do avião. Pensei mais um pouco e então decidi. Vou viajar com tudo que tenho direito. Não me importa nada, se tiver que acontecer algo que aconteça, não temerei! Decidi por não abrir mão de minha liberdade e fui viajar munido de todo tipo de gadget possível.

O leitor já deve estar pensando se escrevo de uma lan house ou se estou mesmo a salvo, digitando essas palavras de meu próprio PC? Aos céticos e alarmistas me desculpo em decepcioná-los, mas estou aqui, vivo com gadgets e conectado postando no blog de meu próprio PC. A cidade hoje me mostrou que ainda continua linda! Deslumbrado, saí da casa onde estou hospedado e fui até a estação de trem mais próxima. Tomei o trem até a Central do Brasil e de lá para os Arcos da Lapa. Passeio incrível, boa companhia, muitas fotos, muitos Twittes e muita diversão depois, retornei a casa sem nenhum problema. O Rio hoje a pesar de todo estigma, de toda propaganda negativa; e claro de toda violência que ainda persiste, me deu um presente inestimável. De uma vez por todas não pensarei mais em problemas e nem me sentirei inseguro por aqui. Os cariocas deram a mim durante todo dia motivos para amar ainda mais o Rio. Pessoas educadas, gentis e divertidas essa é a nova cara do Rio para mim.

Seja bem vindo novamente a minha vida Rio de Janeiro!!! Estava com saudades de ti. Saudades daquelas que não passam fácil. Saudades que tenho certeza serão curadas, mas somente com muitos finais de semana como este, com passeios, diversão e é claro com esse jeito único do carioca do bem.

Embate!

Ontem fui vencido pelo cansaço e pelo sentimento de não pertencimento. O cansaço inimigo impiedoso e sem clemência me abateu fortemente assim que saí do banho. As segundas o ritmo de trabalho em geral é frenético e por  vezes sinto-me como Chaplin em tempos modernos, apertando parafusos até enlouquecer.

Mas o maior vilão ontem foi sem dúvida o sentimento de não pertencimento. Por mais aconchegante que possa ser um quarto de hotel, ele invariavelmente será somente um quarto de hotel e nada mais. A cama com lençóis desconhecidos, a obrigatoriedade de uso do ar condicionado (janelas não abrem), o banheiro pequeno e sem nossos objetos pessoais, as roupas amarrotadas na mala, claro!

Já faz algum tempo que me hospedo nesse hotel, mas nada mudou. Continuo a me sentir estranho, aquele sentimento de não pertencimento. A estranheza do local, a TV pequena demais, a cama estreita demais, aquele estranho cheiro de baú como aqueles antigos que nossos avós ainda mantêm com fotos e todo tipo de documentos e lembranças sempre muito remotas.

Peço então o jantar, que demora e adormeço enquanto espero. Muito tempo depois batem a porta do quarto, acordo e lembro-me do jantar. Imediatamente lembro também que comer no quarto é o maior sofrimento. O cheiro da comida misturado com cheiro de baú, a mesa desconfortável o ar condicionado. Tudo contribuindo para minha derrota. E todos me atacam de uma só vez, sem piedade e com força total.

Após jantar, já abatido e literalmente na cama, entrego-me. Posto algo no Twitter e me dou por vencido.

Mais um embate vencido por meus inimigos, mais um dia perdido, mais um dia sem que tenha evoluído uma linha sequer na leitura do “Sinuca”, mais um dia em que o mundo se resumiu ao trabalho e ao sono. Mais um dia em que vergonhosamente fui vencido.

A empreitada não se perderá. Refeito, já começo a traçar os planos para o fim do dia. Nele está incluso a batalha para ler dentro do ônibus na volta para casa. Serão duas horas de batalha intensa e noturna. Nela o principal inimigo certamente será a iluminação quase inexistente das poltronas do ônibus interurbano.

Vencerei!!!

Estou lendo

Não paro de me surpreender com o quanto a tecnologia vem modificando a forma como vivo. Há algum tempo, não muito longo, algo em torno de 6 meses conheci via Twitter uma escritora de Porto Alegre que se mostrou muito capaz e simpática. Trocamos algumas mensagens e conversamos muito sobre literatura, livros e mais um monte de assuntos diversos.

Após ler alguns trechos de escritos da autora em seu blog, fui tomado de assalto pela qualidade dos escritos e passei então a me interessar pelos textos da escritora ainda mais. Pois bem, a compra do livro Sinuca Embaixo d’água veio daí, uma simples troca de mensagens, conversas despretensiosas e claro a altíssima qualidade dos escritos da autora. O nome dela: Carol Bensimon. Se por algum momento dentro de minha insignificância fosse chamado a apostar no futuro de algum novo escritor brasileiro certamente o nome de Carol Bensimon estaria no topo da lista, sem medo algum de errar.

A leitura começou há algum tempo e como aqueles que me seguem ou leem esse blog veio sendo dividida injustamente com outras leituras, muitas delas técnicas ligadas a minha profissão, mas nada que pudesse prejudicar o prazer de encontrar nas páginas de Carol Bensimon uma literatura suave, charmosamente fragmentada e surpreendente.

Hoje coincidentemente por problemas de ordem mecânica, meu automóvel foi afastado das ruas provisoriamente e voltei a tomar o bom e velho ônibus para vir a Ubá trabalhar. Foi então que a leitura do Sinuca deslanchou de vez. Hoje o trabalho será mais inquieto do que normalmente, pois a sede do livro me tomou por completo.

Finalizando hoje a noite conto mais sobre a evolução da leitura que pelo visto terminará lá pelas tantas das madrugada. Para os ansiosos, sugiro acessarem o site da escritora e se deliciar com os contos para download gratuitos. Segue o link: http://www.carolbensimon.com

Abaixo a sinopse escrito pela autora:

Sinuca embaixo d’água é uma história construída em torno de uma ausência. Sete personagens narram um momento de luto, depois que Antônia, uma garota na casa dos vinte anos, morreu num acidente de automóvel. Boa parte dos episódios transcorre no bar do Polaco. Às margens de um lago, os fundos do bar abrigam um salão de sinuca.

O local é frequentado por Camilo, irmão rebelde de Antônia, que tinha uma relação especial com a irmã: entre a adoração e o instinto protetor. Sua principal ocupação é montar e desmontar carros antigos.

O tímido e doce Bernardo era colega de faculdade de Antônia, com quem ela mantinha um romance platônico. É ele quem vai esboçar uma investigação sobre o acidente: estaria ela embriagada, transtornada por uma briga passional, fugindo, sendo seguida?

Bernardo e Camilo não são os únicos a se ocupar dessa ausência. Polaco, a jornalista Helena, o publicitário Gustavo, o vizinho Lucas e o forasteiro Santiago estão todos ligados, entre si e a Antônia, graças a esse acontecimento trágico, que instaura outro tempo, feito de memória, dificuldade de expressão e necessidade de um novo aprendizado.

Volte

Então estais: Tu!

Linda, cheirosa, carinhosa…

És Tu.

Meiga, doce, deslumbrante.

És Tu.

Reconheço.

Tímida, inteligente, capaz…

És Tu.

Reconheço?

Implicante, arrogante, triste…

Sinto, percebo, discordo.

Discordo!

Presunçosa, altiva, distante…

És Tu?

Recuso-te.

Vou para longe, fujo.

Eu covarde.

És Tu?

Hoje não te reconheci.

Meu mundo tornara-se diferente. Mudanças não autorizadas!

Tornara-se diferente em segundos.

Diferente.

Diferente você…

Onde está você?

Volte.

Eu…

Sexta-feira, feriado, 2 de abril de 2010. Havia parado de escrever como os amigos e leitores puderam ver. Felizmente no período em que fiquei sem compartilhar nada aqui no blog muitas coisas boas aconteceram e outras ruins também. As boas serviram de alento para tempos difíceis de muito desgaste emocional e psicológico e daquelas ruins algumas permanecem a me assombrar enquanto outras tantas já nem me lembro de terem em algum momento me afetado.

Muito se passou o ano virou e estou aqui postando  já segundo trimestre. Em geral meu apetite por ler e escrever não mudou em nada e ainda penso insistentemente no projeto do livro, o qual com esforços um tanto quanto sofridos, passei finalmente para o terceiro capítulo. Quanto a leitura terminei o enfadonho Mentes Perigosas, livro excelente, muito bem escrito e estruturado e bom. Seria pois muito melhor se não fosse o efeito que provocaste em meu convívio com as pessoas. Na verdade foi espantoso descobrir o quanto pessoas tidas como normais podem ter traços psicóticos tão fortes e conviver nos afetando, sem que nem ao menos percebamos.

Lição aprendida e traumas superados, aprendi a conviver com psicopatas e posso até dizer que estou testando minha imunidade a eles. Centralizadores, egoístas e por que não loucos! Essas máquinas de destruição do sentimento alheio estão mesmo a solta e vão pegar você mais cedo ou mais tarde. Como se proteger? Não há como!!! Não chorem, não tentem eximir-se de relacionamentos novos. Os vampiros modernos não tem dentes como aqueles de HQ’s e das séries de TV. Isso mesmo, os vampiros tem rostos normais e soam como normais. Os vampiros de hoje tem mesmo dentes, garras e todo tipo de artifício é na alma. Chegam conquistam, tornam-se próximos, demonstram afeto, mas no fim… Tudo termina exatamente como nos seriados e nos HQ’s. Os psicopatas acabam nos sugando. O alimento porém não será nosso sangue, mas sim nossa alma.

Aqui de alma salva, mas com sérias escoriações sigo com este blog, lido por poucos isso é quase certo, mas ocupando exatamente o papel mais importante que poderia ocupar no mundo digital ou não. Este pedacinho de bytes hospedado em algum servidor ou simplesmente na rede carrega as cicatrizes da minha alma e as boas lembranças de minha vida. Não tenho a pretensão de que este espaço torne-se nada demais. Desejo apenas que aqueles que passem por aqui possam ao contrário de muitos que conversam ou convivem comigo, ler e conhecer a alma e o ser que erra, que sente, que pensa, mas que acima de tudo existe! Ser reconhecido como vivo é ser conhecido não pelo que aparentamos ou fingimos ser, mas sim pelos traços morais e pelas marcas de nossa alma, então conhece-me, leia-me, pois este sou o verdadeiro Eu!