[Conto] Sobre infância e ladrões

Mais um ano se passara trazendo com ele a data tão esperada por aqueles dois amigos, parentes e irmãos. O feriado que compreendia natal e ano novo há muito se transformara na data mais importante para a família toda e este ano não seria diferente. As ligações tão escassas durante todo ano, agora são intensas de tal forma que consomem boa parte do tempo livre de todos envolvidos com os preparativos da grande noite.

Ale se apressa em candidatar-se a cuidar de toda bebida necessária para os dias de festa. Cultivando o hábito desde a adolescência Ale tornara-se algo muito próximo a um alcoólatra, observação restrita somente aos meus pensamentos, claro. Afinal sempre me preocupara o fato de ter sido eu, um dos grandes parceiros de álcool quando de nossas noitadas intermináveis. Noites únicas aquelas. Conversas e situações inesquecíveis, sem dúvida.

Já passara das onze horas daquela noite quando meu telefone tocara. Insistente me fez vencer a preguiça, largar a cama, deixar a leitura de lado e ir atender. Sempre tive problemas com telefonemas fora de hora e dessa vez não foi diferente.

– Alô

­- Cabral?

– Oi

– Oi Cabral tudo certo?

– Tudo certo Aleeee. A que devo a ligação no meio da madrugada, hein mano?

– É que estive pensando se neste ano faremos ceia ou churrasco.

Entediado com as perguntas tresloucadas de Ale respondi em tom seco, na esperança de que ele entenderia que eu não queria conversa aquela hora.

– Mas Ale todos os anos desde que aprendemos a respirar fazemos churrasco nas festas de fim de ano! E você ainda continua e me perguntar isso mesmo após, sei lá uns 38 anos?

– É que fico meio tenso, sabe. Os preparativos consomem minha cabeça e enquanto não chega o dia não paro um segundo sequer de pensar.

– Tá bom eu entendo, mas por favor tente pensar mais cedo e veja se me liga mais cedo também, pois afinal feriado ainda está longe e eu tenho muito que trabalhar até lá.

– Tá bom rabugento! Depois nos falamos com calma então. Veja se vai dormir logo para melhorar esse humor.

– Vou pensar em seu caso, ok? Boa Noite!

– Boa noite, mala.

Ao desligar o telefone, fiquei por alguns segundos com pesar, mas logo me lembrei que Ale já estava calejado com minhas rabugices e que não guardaria mágoa de minhas punhaladas. Volto então para cama e para o livro. Recomeço de onde parei e percebo que não me lembro dos acontecimentos do início do capítulo. Volto então ao começo, mas antes me vem um flash. Lembro-me dos projetos antigos de escrever um conto. Penso em possíveis histórias, nenhuma boa o bastante ainda para merecer um livro ou um conto que seja. Desanimado mais uma vez, volto a ler e então em um de meus sincronizados cochilos… Desperto assustado tendo sonhado com a história perfeita.

– PERFEITA!!!!!!

Gritei de entusiasmo e num súbito, misto de euforia e excitação, pulara da cama para o computador e começara a rascunhar apressado. Nem conseguira descrever o que fiz naquele momento. Um esquema?, Rascunho? Notas? Seja o que for estava eu ali escravizado pela ideia. Foi então que percebi que algo mudara dentro de mim naquele momento. A angústia passara, sentia mais intensamente tudo, cores tornaram-se mais vivas, sons mais intensos e puros. Inesperadamente e ligeiro, naquele exato momento algo em mim se transformara.

Rascunho pronto, ideias no papel, rabiscos, cores, anotações no computador e depois anotações a mão, num momento saudosista, sei lá. Tudo fervilhando, coração acelerado não conseguiria acalmar-se e dormir em paz mais naquela noite. Então separei mais uma caneca de cappuccino e voltei a escrever. A história, perguntarão os leitores… Ah sim a história, querem saber qual a história me escolheu? Contarei mas não agora e nem de uma só vez. A história perfeita será contada aos poucos e também aos poucos me deliciarei com ela. Por enquanto, após tudo anotado o cansaço retorna, lembro-me da conversa com Ale. Lembro que tenho muitos dias até o feriado. Então satisfeito em ter sido tocado pela história perfeita, vou dormir. Amanhã tem mais.

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