Mês: abril 2011

Férias em Monte Velho – Cap.01

Desde sempre Roberto passava férias em Monte Velho. A cidadezinha não era lá o melhor lugar do mundo, mas a mistura de estilos arquitetônicos do local sempre o deixaram meio estranho, uma mistura de fascínio e medo. Fachadas clássicas misturavam-se a construções modernas, barrocas e também aos estilos misturados, na verdade um mix indefinido de estilos.

A casa de sua Tia Nelinha não escapava ao espanto e por vezes Roberto sempre prometia arrumar outro lugar para passar férias, nada contra Tia Nelinha, é claro, mas o lugar era realmente de assustar.

Como já era de costume chegou á cidade bem cedo pôs-se a caminhar até a casa de Tia Nelinha com sua mochila a passadas ansiosas e cada vez mais intensas e largas. Chegara ao destino ofegante e esmurrando a porta, que por ser muito velha necessitava de grande esforço físico para se fazer ouvir pelo barulho.

Tia Nelinha, então já aguardando a chegada do sobrinho iria sem muito entusiasmo atender à porta. Cumprimentos feitos Roberto caminhara para o quarto de sempre. Ao chegar notara algo de diferente no ambiente e bom observador que era logo reparou no quadro pendurado logo acima da cabeceia da cama onde dormiria pelos próximos dias de suas férias. Encarando o quadro, sentiu algo estranho, não era surpresa e tão pouco desgosto pela obra ali exposta. Roberto sentira uma estranha energia vinda do quadro.

Preocupado que estava em dar cabo de sua fome e iniciar logo expedição pelas estranhas ruas da cidadezinha, não deu muita importância às sensações provocadas pelo quadro e foi logo para a cozinha importunar a Tia.

Após um belo café da manhã digno da energia e inquietude dos jovens, Roberto querendo ser simpático com a Tia pôs-se a elogiar o bom gosto pela escolha do quadro que agora compunha a decoração de seu quarto provisório. A Tia feliz com os elogios passou por um rápido momento de prazer na companhia do sobrinho que a fez naquele momento sentir-se como uma pessoa de bom gosto.

Não havia nada demais com o quadro e Roberto sabia muito bem disso. Conjugado com uma decoração soturna e escura a obra parecia perdida e inócua, sem falar na grande obscuridade da imagem retratada. Mas de alguma forma Roberto sentia algo de familiar e ao mesmo tempo assustador na imagem retratada no quadro. Sentia uma espécie de apreensão como se já tivesse passado por alguma experiência ruim com a pessoa estampada ali. Sem dar muita atenção para seus pressentimentos, Roberto retirou-se do quarto e fora finalmente desbravar as ruas tranquilas de Monte Velho.

Logo ao sair de casa, depois de uma imensidão de recomendações e instruções da Tia Nelinha, já sentira a ligeira impressão de que estas seriam férias inesquecíveis. E não foi preciso se distanciar demais da casa de Tia Nelinha para que a primeira surpresa acontecesse. Roberto distraído e embriagado com seus pensamentos ouviu o suave e ligeiro grito:

  • Beeeeetoooooo!!!!!!

Procurando rapidamente a fonte emissora daquele som agradável e sensual, Roberto em segundos varrera toda a área e logo encontrara o alvo de sua procura.

Alguns anos se passaram sem que Roberto visitasse Tia Nelinha em Monte Velho, mas parecia que a visão que tivera naquele momento, fosse a reprodução exata, quase uma volta no tempo, de Camila. Foi então que Roberto olhando mais detalhadamente sussurou consigo mesmo:

  • Camila está radiante como nunca, bela como sempre, deslumbrante.

Roberto paralisado fitava Camila como se nunca antes tivesse provado de beleza tão intensa e plena. Sem ação e imobilizado, curiosamente veio à cabeça de Roberto o pensamento no estranho quadro de seu quarto provisório em casa de Tia Nelinha. Nesse instante delirante e surreal Roberto abraçou Camila sem pensar e instantaneamente experimentou a mesma sensação de quando vira aquele quandro estranho pela primeira vez.

Dali para frente a vida de Roberto e Camila nunca mais seria a mesma e eles nem de longe poderiam imaginar aquilo que o destino reservara para este reencontro.

Enlouquecendo

Em alguns momentos da vida é difícil saber dar prioridade a certos assuntos, leituras, tarefas, amores e etc… Não canso de reclamar do quão tenso vem sendo os dias, das noites mal dormidas das tarefas e responsabilidades sempre inversamente proporcionais à quantidade de trabalho e esta sem dúvida encontra-se situada muito acima de nossa condição física e mental medida pelo simples indicador de tempo produtivo.

Venho sofrendo há algum tempo as imposições do designo imposto pelo tempo à minha vida. Como ser melhor, mais eficaz, mais culto, mais sábio? Como ler mais, aprender mais, pesquisar mais ou experimentar mais? Como?

O tempo nos consome menos pelo aquilo que desejamos e  mais por aquilo que nos é imposto a fazer. Vivemos a era da imposição. Quem por algum dia ou um segundo sequer pensar que é livre, antes de sair por ai arrotando sua condição de independência e liberdade, faça uma pequena reflexão em sim mesmo. Pense seriamente e sem reservas ou manipulações irreais. Veja então senão há nenhum horário a respeitar ou cumprir, se não possui nenhum protocolo, tarefa ou seja lá o que for que obedeça ou tenha restrição de horários para sua execução? Então quando realmente sentir que não tem nenhuma regra, convenção, compromisso ou dívida, não se deixe tomar pela euforia. Continue refletindo se não possui preconceito, nenhuma convenção, regra, lei ou etiqueta a obedecer, nenhuma ordem a seguir ou ainda nenhum exemplo a ter como referência. Após este simples exame, obtenha suas respostas guarde-as e então declare-se livre, mas somente se puder!

Muitos dirão que liberdade não tem nada a ver com essa montanha de restrições e imposições e etc. E até concordo em termos. Porém dizer-se livre nos dias de hoje parece-me nada mais que um exercício de fantasia, de fuga para uma realidade que não pertence mais aos seres humanos.

Por mais utópico que possa ser, desejar a liberdade plena passa pelo contraditório exercício de renegar a realidade em que vivemos. Como renegar a realidade e nos declararmos livres de toda convenção e do designo do tempo sem nos tornarmos loucos? Como continuar a viver sem liberdade sem enlouquecer? Haverá saída para a loucura? Os dias passam e na falta de uma alternativa, vou enlouquecendo a minha maneira, renegando algumas convenções, aceitando outras, tentando enganar o tempo e sendo enganado por ele.

Viver é enlouquecer. Enlouqueço conscientemente na esperança de que o disfarce seja convincente. Enlouqueço conscientemente e me misturo aos loucos tidos como normais e assim vão passando os dias e as noites, passa o tempo e sinto-me então cada vez ainda mais cansado disso tudo. Viver é enlouquecer e eu certamente já estou louco até demais.