Queixas, amizades e inquietudes

A noite sempre foi uma das minhas melhores amigas, seja para refletir, estudar, ler ou mesmo escrever. Não sei ao certo o motivo, mas nesses dias em que luto para não ser mais uma vez um fardo pesado para as pessoas, penso que um dos motivos principais de minha íntima amizade com a noite possa ser resultado da necessidade de afastamento ou refúgio de tudo e de todos em mim.

Nunca fui e nem pretendo ser uma pessoa solitária e também não sou daqueles que deseja se isolar de certas situações ou pessoas, o que acontece é que desde muito cedo manifesto mesmo que inconscientemente uma necessidade de momentos solitários. Até o momento não encontrei melhor remédio do que as longas madrugadas a sós com meus pensamentos, minhas músicas, meus livros e é claro minhas tensões e minhas queixas.

Tenho me queixado mais ultimamente, não sei se devido ao avanço da idade ou se apenas como resultado de minha personalidade, sempre muito inquieta com tudo e às vezes com todos. Em minhas longas reflexões tenho pensado muito nessa inquietude, na sensação constante de insatisfação e nas decepções que tal como minhas queixas vem se agravando como um surto viral em mim.

Busco saídas, penso, reflito e tento ser mais paciente com certas situações na busca em vão até agora, de serenidade para contornar sabiamente os desafios que se apresentam no convívio profissional e pessoal e que diferente de tempos passados são muito mais frequentes e intensos agora. Essa intensidade e frequência vem dia após dia sugando cada vez mais energias exigindo ainda mais de uma mente, não cansada, mas inconformada. Chego a pensar que ao final de todo esse processo pouco pode sobrar de minhas baterias para tantos quilômetros que ainda tenho a percorrer nessa busca já irracional de conciliar, liderar e interagir com tanta diferença, com tanto descaso, pouco caso, ironias e outros obstáculos que pensando melhor, não tem roubado minhas energias, mas sim minha determinação e vontade de continuar com tudo isso.

Um cansaço de tudo e de todos às vezes toma conta do cotidiano e mesmo relacionamentos mais próximos tornam-se distantes. Ambientes familiares transformam-se em quartos escuros onde como se não bastasse a cegueira a impedir o reconhecimento do local e das pessoas, sinto-me como se enfeitiçado e estranhamente não reconheço nem sequer o timbre vocal daqueles que até ontem eram tais como irmãos.

E assim no escuro, por mais incoerente que possa parecer, encontro-me. Volto a enxergar novamente. Como é possível? Eu explico.

Quando me recolho ao escritório, já em casa, na companhia de meus livros, verdadeiros conselheiros e amigos de horas difíceis, sinto como se estivesse numa espécie de centro de terapia intensiva. É então que me encontro e reencontro amigos de longa data. Peço conselhos a “Fernando Pessoas”, recebo concelhos expressos nos excelentes parágrafos da escritora inglesa Jane Austin, mergulho na qualidade literária de Roberto Bolaño e utilizo de toda a sabedoria e conhecimento profundo do francês Marcel Proust. Assim após algumas horas na companhia desses e de tantos outros amigos e como que num passe de mágica, refaço-me recupero-me, Eu novamente Eu. Recarregadas as baterias, me acalmo mais uma vez. Novamente é tempo de fazer planos, planejar ações, traçar caminhos, definir metas e pensar que amanhã tudo será melhor. Faz-se novamente a luz, reconheço as vozes de bons amigos conquistados e mantidos, mesmo com toda dureza de minhas grosserias e queixas. E é assim que com a ajuda da amiga noite e dos muito mais que amigos os Livros, Eu sobrevivo, depurando-me diariamente na esperança de que possa ser fardo menos pesado aos que por opção ou por falta dela convivem ou são forçados a conviver comigo e minhas queixas.

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