Mês: julho 2011

Vivendo e atuando: Eu personagem de mim

Eis que um rompante, um átomo que se parte, um vento que sopra, um conselho que recebemos e tudo muda inexplicavelmente. Somos então chamados a abandonar a inércia da nossa rotina e a mesmice das horas perdidas com bobagens e todo tipo de amenidade dispensável. Não é fácil assumir e reconhecer que é momento de mudar, de dar aquela guinada na vida para promover algo inovador rompendo os laços da acomodação tão presentes nos dias monótonos de nossa existência excessivamente regrada, conservadora e sem graça.

Fui pego inesperadamente por um desses rompantes de mudança, de uma hora para outra, vindo do nada, sem aviso, sem reservas e de maneira muito mais direta do que poderia esperar e assimilar sem que deixasse o medo e minhas inseguranças aflorarem a ponto de interferir até em minhas mais primitivas funções orgânicas. Atraído para o interior de uma espécie de abismo negro vou em queda livre para dentro de mim mesmo sem esperanças de haver um fim nisso tudo. É então que mergulho em sensações obscuras que trazem a tona o medo, a insegurança a vontade de fugir de tudo, de largar tudo e todos e por mais que lute permaneço paralisado com medo do resultado de toda essa mudança que chega levando para longe toda a calmaria dos dias de mesmice e rotina.

Passado algum tempo de queda, ainda aflito promovo um rompimento com o subjetivo, controlo o emocional, relaxo, situo-me na imensidão do nada que me tornei, elimino e escuridão e encontro-me novamente. Passo então a reconhecer as sensações, relembro vagamente o que sou e o que fui e assim o obscuro vai se dissipando, torna-se turvo e vou definindo-me novamente.

Ainda em queda, sinto maior suavidade, a velocidade da queda fora reduzida e tento encontrar racionalidade na situação, começo e identificar o caminho, a reconhecer o cenário escuto os sons vindos dos camarins, vejo então o fim do abismo. Lá no fim vejo tons de vermelho sague, feixes de luz que vencem a resistência da cortina e então escuto os sons da bengala na madeira, três batidas fortes, uma campainha.

A queda reduz ainda mais a velocidade, passo a enxergar tudo de forma muito nítida, vejo o fim do abismo e a cortina vermelha. Os feixes de luz já tocam meu rosto e sinto o ambiente escuto e o burburinho. Olho para os lados e sei exatamente onde estou, sei quem sou, escuto novamente as batidas de bengala no palco de madeira e a campainha toca mais uma vez. É então que a cortina se abre, as luzes foram apagadas, estou no palco mais uma vez, olho para frente e um refletor me cega, abro os olhos e estou em casa, em meu quarto. Acordo de mais uma noite de sono, o show vai começar novamente, eu atuando como protagonista da minha própria vida, mais um dia que se inicia.

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