Mês: abril 2014

Caminhada

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O tempo castiga-me.

Preciso escrever,
Tenho pressa.
Tenho pressa em me libertar.
Pressa de mudar,
Pressa!

O tempo castiga-me.

A rotina está a matar-me.
Envenenado sigo a estrada turva das escolhas que fiz.
Sinto algo errado em mim,
As reações começaram.
Tenho pressa.

Preciso escrever.
Impossível livrar-me das consequências.
Olhos alheios atentos a mim,
Conhecem-me.
Olhos alheios,
Não sabem do nada.

O papel castiga-me.

O veneno avança.
O tempo cobra o preço.
Não morrerei do veneno,
Nem terei minha vingança.
Tenho pressa.

O papel castiga-me.

Não há como salvar-me.
Culpado,
Intoxiquei-me.
O veneno não mata,
Castiga-me.
Tenho pressa!

Preciso escrever,
Tenho pressa.
Presa de chegar,
Lugar distante.
Pressa!

Só posso andar,
De que me vale apenas caminhar?
Correr não posso!
Já disse, ora!
Só andar.
Tenho pressa.

Como chegar?
Lugar distante.
O caminho,
Atroz.
A Estrada,
Turva.
Suportarei?

Tenho pressa e só.

Partitura

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Libertou-se do trabalho naquele dia aparentemente normal. Foi para casa automaticamente sem pensar em nada. Sentiu-se feliz com sua vida. Preocupou-se com as contas a pagar. Sorriu para estranhos a caminho de casa. Caminhou sem pressa.

Chegou em casa. Teve vontade de manter a dieta. Faltou convicção. Abriu a geladeira. Comeu demais. Não estava para conversas, mas conversou com seu cão. Sempre considerou normal conversar com cães, mas só aqueles com os quais tinha amizade.

Vagou pela casa, não sabia por onde começar. Refletiu. Decidiu nada fazer. Aquietou-se no sofá. Cochilou. Acordou. Os olhos permaneceram fechados. Escutara acordes de uma música que o lembrara as obras de Schubert. Sentiu bem, até que pensou por um instante e então foi tomado de um pavor inexplicável.

Continuou inerte procurando mentalmente explicações possíveis que esclarecessem a origem da música. Não obteve êxito. Amedrontou-se pensando ser o emissário do designo a lhe preparar para partir. Sentiu um peso incomum no tórax e uma dor intensa no abdômen.

Ainda sem saber explicar a música de Schubert, consolou-se pensando ser uma bela trilha sonora para ter seu espírito levado pelo designo.

A música continuava e o coro agora estava esplendido. O medo crescera. Teve medo de abrir os olhos. Pensou na vida que teve, agradeceu a Deus. Rezou.

Sentiu a presença de alguém no ambiente. Ouviu ruídos que não soube descrever. Apavorou-se. Medo! Então transpirou e a partir daí não conseguiu mais se controlar. Seu corpo começou a denunciar todo medo que sentia naquele momento. Àquela altura ainda não conseguira abrir os olhos. Obscurecido pelo medo, ouvia Schubert e o coral, agora em volume mais alto.

O medo crescia cada vez mais e com ele o volume do coral e da orquestra. Contavam e tocavam a Missa Nº 6 em Mi bemol maior, D. 950 de Schubert ao fundo.

Não era conhecedor tão profundo da obra de Schubert. Pensou e não soube explicar como identificara a música com tamanho detalhamento. Ainda não tinha nem sequer uma vaga ideia de onde a música era executada. Ainda olhos fechados. Voltou a sentir a presença de algo que poderia ser qualquer coisa. Uma pessoa? Um espírito? Um monstro? Um animal? A morte? Morte?

Teve medo de morrer!

Resolveu arriscar-se. Num súbito sentiu o suor, o tremor, a dor, o pavor.

Abriu os olhos! A imagem borrada não tinha definição. Abriu e fechou os olhos. A imagem definiu-se e ele viu! Lá estava!

Estava em casa. Vira o vulto. A música já lhe apresentava ensurdecedora, agressiva. A música agora viva, maltratava-o. Música, volume, agressão: o vulto.

Lá estava o vulto. Pensou e declamou orações mentalmente. Estava com muito medo. O vulto veio até ele. O vulto era….

Sim era ele. Sim, era o indesejável. E lá estava ele, apenas um vulto. Apenas um vulto. Um borrão negro e ameaçador. O designo estava ali e não há como enganar ou postergar o designo. Era a sua hora. A última hora. A hora final. Aquietou-se. Aceitou.

Continuou ouvindo a música: Schubert. Pensou como era linda. Sentiu a música elevar-se. Ouviu o coral em seu apogeu e então…

Partiu.

Até quando?

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Ser humano é sentir.
Sentimento.
Ser humano é sofrer.
Sofrimento.
Ser humano é lamentar.
Lamento.
Ser humano é sentir as perdas.
Ser humano é viver sofrimento.
Ser humano é viver em lamento.
É durar,
Envelhecer e morrer.
Permaneço aqui enquanto muitos se foram.
Solidão.
Sofrer pelas perdas.
Desejo de viver demais.
Suportar demais!
Maldição!
Você seguiu seu caminho hoje.
Não deu tempo às despedidas.
Saudade.
Ser humano é viver em lamento.
Carrego em mim o peso Saudade das perdas.
O fardo hoje é a dor da partida.
Sigo em frente,
Solidão me pesa mais.
Lamento.
Sigo em frente,
Saudade pesa demais.
Sigo em frente,
Até quando?

De volta para casa

 

Nunca me perguntaram o porquê de ter começado a escrever aqui. Tão pouco me perguntaram o motivo de ter parado de escrever. Talvez tenha sido cegado por uma ilusão ingênua e imatura de que poderia escrever algo relevante ou minimamente interessante a alguém. Definitivamente esse não parece ter sido o caso aqui.

Mesmo assim algo de mórbido sempre acaba me trazendo de volta. Nada planejado, juro.

Antes porém que perguntem o motivo do retorno, das idas e vindas, da inconstância nas publicações… Antes que perguntem demais. Antes que transformem esse post num fardo, permito-me uma reflexão.

Talvez tenha ido longe demais. As vezes sinto que possa ter perdido o caminho de casa. Sinto que vaguei demais, que fiquei longe demais daquilo que realmente sou. Sinto tudo o tempo todo.
Sinto muito.

Certo ou errado? Não sei. Parece que nunca sei de nada. Não imagino ser isso um comportamento normal.

Não gosto de explicar-me a ninguém.

Não quero me explicar. Quero mesmo é realizar-me.

E aqui acredito ter chegado à razão que me faz estar sempre escrevendo, de ir e vir para cá, de não conseguir passar períodos muito longos sem pensar em estar aqui e escrever.

Talvez tudo tenha sido um delírio, um excesso de pretensão, outra esperança perdida. Poderia ter sido qualquer coisa, não sei. Posso estar ficando louco, mas talvez o motivo de sempre retornar a escrever aqui, seja meu inconsciente me dizendo que este sim é meu lugar.

Finalmente sinto-me em casa novamente. Eis que subitamente retorno, da mesma forma que um dia desapareci, sem aviso.

Odeio explicar-me.