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Limonov

LimonovLimonov by Emmanuel Carrère

Não gostei. Essa foi apenas a primeira impressão que tive ao iniciar a leitura de Limonov de Emmanuel Carrère. E essa impressão não parece ter sito à toa. As primeiras páginas são meio arrastadas inseridas num contexto completamente estranho para mim até então. Os personagens são desconhecidos e também o ambiente. Referências são entendidas, porém igualmente estranhas.

Mas essa impressão ruim aos poucos vai passando. À medida que a história vai se desenrolando, fui conhecendo traços da personalidade de Limonov que são fascinantes. As suas misérias quando a busca, por vezes irascível, em se tornar o herói que sempre sonhara o leva a decisões e ações que parecem uma mistura de comportamentos esquizofrênicos e obsessivos compulsivos.

E a história vai se desenrolando e em algum ponto, mesmo após muitas demonstrações de comportamentos autodestrutivos, acabei me identificando com Limonov. É interessante como suas histórias vão fazendo mais sentido e como em algum ponto da leitura, que não consigo precisar, passei da repulsa à identificação com ele. A recusa de Limonovo e se tornar uma pessoa medíocre talvez explique essa transição durante a leitura.

Ao fim minha opinião mudou. O livro foi espetacular! A experiência de vida e os relatos daquilo que fora na verdade o regime socialista soviético chocam e fascinam quando relacionadas à trajetória de vida dos personagens. Sem teorias, sem elucubrações filosóficas, mas com relatos de casos reais da rotina de quem não era apadrinhado pelo regime socialista e sofria com as exceções e onde a liberdade esteve longe ser uma realidade.

Ao final um momento mágico onde são tratados os anos de prisão de Limonov. Um período como ele mesmo reconhece e que, por incrível que possa parecer, o enobrece ainda mais. É complexo explicar como períodos de prisão podem enobrecer alguém, especialmente para um brasileiro, haja vista nosso mais que precário sistema prisional. Mas é isso que acontece com Limonov. A prisão e talvez o reconhecimento de estar limitado ao bloco de anotações, os passeios externos e as paredes da sua cela, deixa a impressão de ter sido o momento onde Limonov só se ocupou apenas dele mesmo. E esse momento ele aproveitou magistralmente.

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Um dia, um café e a vida sem graça

Naquele dia acordou depressivo. Não que tivesse motivo para isso, mas sentia uma melancolia cinza e fria. Aos poucos a tal melancolia o fora consumindo ao longo de mais uma manhã sem graça, como a grande maioria de suas manhãs nos últimos meses. Tentou disfarçar e se convenceu de que sua atuação estava a contento, porém não fora essa a imagem decifrada por aqueles a quem encontrara naquela manhã. Resignado e ainda sentimentalmente confuso, avistou um Café. Passara por aquele caminho fazia anos sem que nenhuma grande mudança o alertasse significativamente, mas naquela manhã… Lá estava ele, sublime, charmoso e dotado de um magnetismo místico impossível de se negligenciar.

Como sempre estava atrasado, compromissos desestimulantes o aguardavam como sempre, rotina cruel de seus dias desinteressantes e sem graça. Sentia-se impotente diante de tentativas frustradas em promover, pelo menos até aquele momento, mudanças substanciais em sua vida. E por um minuto deixando de lado a razão e num impulso libertador, parou o carro no primeiro espaço que vira. Não se preocupou com leis que pudessem se impor ali e na verdade chegou a desejar que levassem seu carro embora, num súbito desejo por tornar aquele dia mais interessante e menos monótono que os demais.

Saiu do carro como se estivesse se libertando de tudo aquilo que viera carregando de mal naquela manhã cinza. Entrou no Café como quem já no leito de morte conquista mais alguns dias de vida. Sentou- se na primeira cadeira que avistou. Contemplou então o relógio onde vira a hora passar e sentiu um prazer sádico em ver que se atrasaria para os compromissos que o esperavam.

Parado recompondo muito lentamente sua consciência racional continuava a observar os minutos correndo no relógio imaginando o que seria necessário fazer para transformar por completo sua vida em algo mais interessante e foi então que se deu conta da presença de uma das atendentes do local: O Café. Ainda meio que sofrendo de um transe olhou para atendente e ela gentilmente lhe perguntou se desejava ver o cardápio.

Pensou, pensou e de repente algo o intrigou. Não conseguia mais lembrar quanto tempo permanecera sentado ali. Olhava o relógio mas não conseguia interpretar as horas. Em pânico novamente voltou-se a olhar para a atendente e viu que na sua frente, com olhares assustados, que havia mais que apenas uma atendente ali. Foi então que sua consciência veio retornando e ao olhar novamente viu além das atendentes mais um monte pessoas ali com olhares os mais variados, mistos de preocupação, espanto e alguns até de indiferença.

Perguntou sem especificar a quem, que horas eram e uma das atendentes lhe disse:

– SÃO TREZE HORAS.

A informação se impôs sobre ele como um soco direto no queixo. Voltou a ficar meio tonto e perdido e então soltou:

– Um expresso por favor. Estou com pressa e não posso demorar!

A atendente então ignorando o pedido perguntou de volta o arguindo se ele estava se sentindo bem.

– Bem? Estou muito bem obrigado! Apenas não consigo ler as horas.

– Ler as horas…

Nossa!!! Perguntou novamente que horas eram. A atendente então respondeu em tom já denotando sua falta de paciência.

– TREZE HORAS SR!

Ele então não disse nada. Recolheu o livro e o celular que estavam na mesma e foi saindo dizendo estar atrasado. Ao chegar na porta do Café procurou mas não localizou por ali seu carro e então pensou: Tudo certo, agora já sei que estou de volta e que tudo está normal. Seja bem-vindo a sua vida sem graça e agora sem carro! E sem pensar muito começou a caminhar sem destino.

Apaixonante assim é a obra de Leonid Afremov

 

A arte às vezes nos confunde, nos choca, espanta, impressiona e não raro nos transforma das mis diversas formas. Não raro em alguns momentos sinto certa hipnose com algumas expressões artísticas e essa sensação ultimamente vem sendo mais recorrente quando tenho contato com pinturas e com música clássica.

Não é segredo para ninguém que lê e acompanha meus escritos aqui no blog que tenho uma relação muito próxima com a música clássica em especial e com a música em geral. Foram já vários posts a respeito do assunto onde pude expor algumas preferências e opiniões pessoais sobre compositores clássicos, vídeos e em alguns casos a relação da música clássica com desenhos animados, outra paixão que ainda cultivo.

Mas hoje o motivo deste post não foi o contato hipnótico com alguma música ou compositor clássico, hoje exponho aqui, algo que para mim fora uma verdadeira descoberta no campo da pintura como expressão artística.  A descoberta veio de maneira meio inusitada pela rede social Pinterst que, diga-se de passagem vem me conquistando a cada dia, pelo seu formato inteligente e pelos posts com muita qualidade que são veiculados nela, mas isso é assunto para outro post.

O nome do artista que me hipnotizou com sua obra é Leonid Afremov, pintor israelense de origem bielorussa. Conhecido ao redor do mundo por utilizar técnica de pintura bem inusitada em que faz uso de espátulas para compor seus quadros, o pintor utiliza em seus quadros cores vibrantes e alegres.

Coloco alguns quadros do pintor para que os leitores possam ter uma ideia da dimensão de sua obra e não vou ficar aqui descrevendo os quadros, pois como aqueles que me conhecem sabem muito bem, acredito que arte deva ser sentida e sendo assim o que importa são os efeitos que sofremos ao ter contato com expressões como a obra do pintor Leonid Afremov. Particularmente a mim causou um estado de hipnose, me levando a um distanciamento da realidade onde pude experimentar sensações magníficas, impossíveis de descrever detalhadamente aqui.

Então seguem as imagens para apreciação de todos! Aproveitem!