Cultura

Acordando no passado

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Naquele dia acordou tarde, não porque podia, mas havia sem querer perdido a hora. Num súbito olhou para o relógio, viu as horas e saltou apressado da cama. Foi até o banheiro escovou os dentes e sentiu sua boca com gosto amargo de uma noite de sono mal dormida. Lavou o rosto e ao se olhar no espelho sentiu o peso de seus 38 anos, pouca idade para alguns, mas não para ele.

Foi lembrando devagar tudo que tinha que fazer, afinal era véspera de natal e não podia esquecer de nada. Foi então que após se vestir para sair às compras, decidiu fazer uma lista de tudo que tinha a fazer naquela manhã que na verdade á estava bem próxima do fim. Ao terminar a lista sentiu um frio na barriga e pensou que não daria tempo para resolver tudo a tempo para o natal.

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Um dia, um café e a vida sem graça

Naquele dia acordou depressivo. Não que tivesse motivo para isso, mas sentia uma melancolia cinza e fria. Aos poucos a tal melancolia o fora consumindo ao longo de mais uma manhã sem graça, como a grande maioria de suas manhãs nos últimos meses. Tentou disfarçar e se convenceu de que sua atuação estava a contento, porém não fora essa a imagem decifrada por aqueles a quem encontrara naquela manhã. Resignado e ainda sentimentalmente confuso, avistou um Café. Passara por aquele caminho fazia anos sem que nenhuma grande mudança o alertasse significativamente, mas naquela manhã… Lá estava ele, sublime, charmoso e dotado de um magnetismo místico impossível de se negligenciar.

Como sempre estava atrasado, compromissos desestimulantes o aguardavam como sempre, rotina cruel de seus dias desinteressantes e sem graça. Sentia-se impotente diante de tentativas frustradas em promover, pelo menos até aquele momento, mudanças substanciais em sua vida. E por um minuto deixando de lado a razão e num impulso libertador, parou o carro no primeiro espaço que vira. Não se preocupou com leis que pudessem se impor ali e na verdade chegou a desejar que levassem seu carro embora, num súbito desejo por tornar aquele dia mais interessante e menos monótono que os demais.

Saiu do carro como se estivesse se libertando de tudo aquilo que viera carregando de mal naquela manhã cinza. Entrou no Café como quem já no leito de morte conquista mais alguns dias de vida. Sentou- se na primeira cadeira que avistou. Contemplou então o relógio onde vira a hora passar e sentiu um prazer sádico em ver que se atrasaria para os compromissos que o esperavam.

Parado recompondo muito lentamente sua consciência racional continuava a observar os minutos correndo no relógio imaginando o que seria necessário fazer para transformar por completo sua vida em algo mais interessante e foi então que se deu conta da presença de uma das atendentes do local: O Café. Ainda meio que sofrendo de um transe olhou para atendente e ela gentilmente lhe perguntou se desejava ver o cardápio.

Pensou, pensou e de repente algo o intrigou. Não conseguia mais lembrar quanto tempo permanecera sentado ali. Olhava o relógio mas não conseguia interpretar as horas. Em pânico novamente voltou-se a olhar para a atendente e viu que na sua frente, com olhares assustados, que havia mais que apenas uma atendente ali. Foi então que sua consciência veio retornando e ao olhar novamente viu além das atendentes mais um monte pessoas ali com olhares os mais variados, mistos de preocupação, espanto e alguns até de indiferença.

Perguntou sem especificar a quem, que horas eram e uma das atendentes lhe disse:

– SÃO TREZE HORAS.

A informação se impôs sobre ele como um soco direto no queixo. Voltou a ficar meio tonto e perdido e então soltou:

– Um expresso por favor. Estou com pressa e não posso demorar!

A atendente então ignorando o pedido perguntou de volta o arguindo se ele estava se sentindo bem.

– Bem? Estou muito bem obrigado! Apenas não consigo ler as horas.

– Ler as horas…

Nossa!!! Perguntou novamente que horas eram. A atendente então respondeu em tom já denotando sua falta de paciência.

– TREZE HORAS SR!

Ele então não disse nada. Recolheu o livro e o celular que estavam na mesma e foi saindo dizendo estar atrasado. Ao chegar na porta do Café procurou mas não localizou por ali seu carro e então pensou: Tudo certo, agora já sei que estou de volta e que tudo está normal. Seja bem-vindo a sua vida sem graça e agora sem carro! E sem pensar muito começou a caminhar sem destino.

Le fabuleux destin d’Amélie Poulain

A sétima arte sempre me emocionou. Quando assisto a um filme verdadeiramente entro em plena sintonia com os personagens e durante aquele instante em que a trama se desenvolve me envolvo por completo. É então que não importando se no cinema, a sós ou acompanhado, na presença de estranhos ou desconhecidos reajo, choro e me enfureço em cumplicidade com os personagens.

Para aqueles que não me conhecem antes de iniciar definitivamente o post é importante informa que tanto para música como para cinema tenho preferências nada lineares. Isso quer dizer que transito facilmente entre filmes de heróis, ação, aventura, suspense e drama. Apesar do perfil eclético é inegável que alguns filmes nos transformam mais que outros e a sessão de cinema em casa ontem trouxe um desses filmes, digamos mais transformadores. O leitor deve estar se perguntando a essa altura, qual filme responsável pela transformação ao ponto de merecer um post aqui? O filme Le Fabuleux Destin d’Amèlie Poulain (França 2001) foi o culpado. Sentença e condenação dadas vamos ao que interessa.

A história se passa em Paris e conta a história de Amèlie Poulain, jovem que fora criada pelos pais em regime de isolamento em sua casa, por desconfiarem que ela possuía doença cardíaca. Depois de crescida e independente Amèlie passa a ajudar as pessoas que estão à sua volta ou que de alguma forma fazem parte de seu cotidiano. O que ela não poderia imaginar é que todo o bem que causara acabaria por criar um forte elo entre ela e as pessoas às quais ajudou e por fim determinaria seu destino culminando em um interessante final em que o desfecho amoroso da personagem atinge seu ápice. Terá sido feliz no amor? Terá sofrido forte desilusão? O fim deixo a cargo do leitor a descoberta.

História de enredo simples e por vezes até inocente, o filme tem um magnetismo impressionante e ao final de 120 minutos deliciosos na companhia de Amèlie Poulain somos levados a um mundo desconhecido para alguns e pouco visitado por outros: o mundo mágico e harmonioso das amizades descompromissadas e verdadeiras. Um belíssimo filme que certamente e por nossa sorte já se encontra eternizado nas telas de cinema, DVD`s e outras tantas mídias.

Para finalizar uma curiosidade. Cheguei até o filme por um caminho não muito convencional. Tive um primeiro contato com a trilha sonora que tal como não poderia deixar de ser, é tão apaixonante quando o filme e cativado pelos acordes fui levado até o filme, um caminho meio inverso ao que costumo percorrer. Enfim termino o post deixando ao leitor o belo trailer do filme onde se pode ter uma parte ínfima do filme e de sua trilha sonora, mas que certamente cumprirá seu papel de despertar curiosidade, onde espero ser suficiente para que todos possam assistir.

Apaixonante assim é a obra de Leonid Afremov

 

A arte às vezes nos confunde, nos choca, espanta, impressiona e não raro nos transforma das mis diversas formas. Não raro em alguns momentos sinto certa hipnose com algumas expressões artísticas e essa sensação ultimamente vem sendo mais recorrente quando tenho contato com pinturas e com música clássica.

Não é segredo para ninguém que lê e acompanha meus escritos aqui no blog que tenho uma relação muito próxima com a música clássica em especial e com a música em geral. Foram já vários posts a respeito do assunto onde pude expor algumas preferências e opiniões pessoais sobre compositores clássicos, vídeos e em alguns casos a relação da música clássica com desenhos animados, outra paixão que ainda cultivo.

Mas hoje o motivo deste post não foi o contato hipnótico com alguma música ou compositor clássico, hoje exponho aqui, algo que para mim fora uma verdadeira descoberta no campo da pintura como expressão artística.  A descoberta veio de maneira meio inusitada pela rede social Pinterst que, diga-se de passagem vem me conquistando a cada dia, pelo seu formato inteligente e pelos posts com muita qualidade que são veiculados nela, mas isso é assunto para outro post.

O nome do artista que me hipnotizou com sua obra é Leonid Afremov, pintor israelense de origem bielorussa. Conhecido ao redor do mundo por utilizar técnica de pintura bem inusitada em que faz uso de espátulas para compor seus quadros, o pintor utiliza em seus quadros cores vibrantes e alegres.

Coloco alguns quadros do pintor para que os leitores possam ter uma ideia da dimensão de sua obra e não vou ficar aqui descrevendo os quadros, pois como aqueles que me conhecem sabem muito bem, acredito que arte deva ser sentida e sendo assim o que importa são os efeitos que sofremos ao ter contato com expressões como a obra do pintor Leonid Afremov. Particularmente a mim causou um estado de hipnose, me levando a um distanciamento da realidade onde pude experimentar sensações magníficas, impossíveis de descrever detalhadamente aqui.

Então seguem as imagens para apreciação de todos! Aproveitem!

Semana de Arte Moderna – 90 anos

Cartaz Semana de Arte Moderna 1922

 

Nos dias 13, 15 e 17 de fevereiro do ano de 1922 no Teatro Municipal de São Paulo, há quase exatos 90 anos acontecia uma das mais expressivas, senão a mais expressiva, renovação da cultura brasileira. O movimento chamado de Semana de Arte Moderna promoveu por meio de experimentações diversas uma ruptura com o passado cultural brasileiro lançando para nossa sorte, aqueles que transformariam o caminho pelo qual vinham sendo conduzidas as artes brasileiras.

O movimento contou com nomes sagrados da cultura brasileira à época até os dias de hoje como: Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Víctor Brecheret, Plínio Salgado, Anita Malfatti, Menotti Del Pichia, Guilherme de Almeida, Sérgio Milliet, Heitor Villa-Lobos, Tarsila do Amaral, Tácito de Almeida, Di Cavalcanti dentre muitos outros. E foi assim que escritores, poetas, pintores, maestros e músicos entraram em definitivo para a história da cultura e das artes brasileiras e do mundo.

Mário de Andrade (primeiro à esquerda, no alto), Rubens Borba de Moraes (sentado, segundo da esquerda para a direita) e outros modernistas em 1922, dentre os quais (não identificados) Tácito, Baby,Mário de Almeida e Guilherme de Almeida e Yan de Almeida Prado

 

Hoje este escritor desregrado e certamente um dos escritores menos lidos de que se tem notícia, para em plena madrugada para relembrar este que foi um dos mais importantes e inspiradores movimentos de renovação cultural de que se tem notícia por aqui. Como complemento e também na tentativa de amenizar as palavras ainda muito aquém de nomes como aqueles citados acima, reproduzo dois vídeos veiculados pelo site do Jornal O Estado de São Paulo com declamações dos poemas:  “Paisagem nº1” e “Inspiração” de Mário de Andrade realizadas pela Professora Telê Ancona. Abaixo seguem os vídeos.