escrevendo

Envelhecer é um exercício de humildade.

envelhecer

Após mais um aniversário é estranho imaginar que de alguma forma estou a cada dia com menos tempo. Ainda mais estranho é pensar que, por mais que me esforce e que siga com rigor todo conhecimento produzido pela humanidade sobre longevidade, não me é possível definir nem muito menos gerenciar quanto tempo ainda me falta por aqui.

Chegar aos trinta e sete anos e ter que reconhecer minha impotência perante o tempo não é uma situação das mais confortáveis, admito. No entanto reconhecer essa impotência é de certa forma, acalentador.

Com o passar dos anos, além de aceitar o designo do tempo vou aceitando uma infinidade de outras limitações. Não pense que esteja triste com isso, pelo contrário. Nascemos e como textos bíblicos ilustram, somos como Deuses. Desde o início até certa altura da vida um sentimento de arrogância e excesso de confiança tomou conta de mim.

E a vida ia passando e cada vez mais confiança e arrogância iam se acumulando. Sempre fui razoavelmente bom escola. Era suficientemente bom em alguns esportes a ponto de não ser um dos últimos escolhidos para os times e nem ficava muito na reserva. nunca fui galã, mas posso dizer que tive meus momentos. Jogava vídeo game bastante e a prática me levara a ser muito bom em alguns jogos.

É fácil perceber que todo o excesso de confiança ia se acumulando com experiências onde a prática e a dedicação transformavam todo o esforço em bons resultados para mim. Felizmente fui acumulando bons resultados também quando saí do segundo grau e fui para a faculdade. Lá pude desenvolver exponencialmente muitas habilidades e conhecimentos. A faculdade passou e a espiral continuou em ascendência na vida profissional, onde não posso me queixar dos resultados que ainda venho colhendo.

Apesar de reconhecer, de maneira bem sóbria, meu caminho até aqui e os bons resultados até aqui é estranho ter também que reconhecer que não terei tempo suficiente para tudo que gostaria de realizar.

Envelhecer é um exercício de humildade!

Envelhecemos e temos que aceitar, de maneira bem sutil e gradual, que não seremos mais prodígios que colecionam vitórias. O tempo vai passando e ele não é um mero contador que registra a passagem dos dias. O tempo leva com ele parte de nós.

O tempo vai passando e inevitavelmente teremos que reconhecer humildemente o avanço de nossas limitações. Já não é simples fazer determinadas tarefas, nem estudar e lembrar de tudo de estudou.

Vão passando os anos e vejo que é possível que não aprenda algumas coisas que gostaria muito de aprender. Não sei se terei tempo para fazer aquele curso de história da arte, ou de ler e entender as óperas famosas de Verdi e Rossini. Não parece haver tempo para estudar história da humanidade, um projeto antigo onde gostaria de estudar década por década tudo que aconteceu no mundo nas artes, nas ciências, na economia, filosofia e política.

Parece que também não terei tempo de ler todos os livros que tenho na biblioteca, embora meu tempo de leitura tenha aumentado muito ao longo dos anos. Também é possível que não tenha tempo para reler livros marcantes como 2666 de Roberto Bolaño e Em Busca do Tempo Perdido de Marcel Proust. Também não conseguirei escrever sobre tudo que gostaria, apesar de atualmente escrever cada vez mais.

Mas não quero que pensem que este é um post onde entrego os pontos. Nunca tive vocação para depressão, mas ao contrário sempre tive muita vocação para o inconformismo. Este post é também sobre inconformismo.

Não vou aceitar toda a limitação que o tempo tenta me impor! Me recuso a aceitar que nesse jogo vou ficar na reserva e participar apenas em determinados momentos. Não! As limitações vão chegando e junto com elas uma certa dose de sabedoria vai se formando. Não aquela sabedoria de ter conhecimento sobre algo. Mas a sabedoria de saber escolher.

Humildemente vou reconhecendo que realmente não haverá tempo para tudo. Então, ao contrário de pensar em travar uma batalha irracional com tempo, vou mesmo é repensar onde estão minhas prioridades. A palavra de ordem é humildade.

Humildade para reconhecer que pode faltar tempo para tudo que gostaria de fazer, não pode faltar, no entanto, é discernimento para decidir aquilo que é importante fazer antes do dia em que farei a viagem. Algumas prioridades já me são muito claras: passar tempo com a família, estar mais próximo de minha filha, concentrar meu caminho profissional para as áreas que gosto aplicando tudo nas empresas que participo, ler mais, escrever mais e ter paciência para aceitar que alguns “jogos” não serei mais titular, mas poderei ser um excelente reserva a ser escalado para momentos decisivos.

Ainda há muito o que aprender e contribuir. Se a partir de hoje não sobrar algum papel de protagonista, terei humildade para desempenhar o melhor papel de coadjuvante que puder. E aqui fica o recado: pode ser que como coadjuvante eu ainda roube muita cena por aí.

Feliz trinta e sete para mim!

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Seja saber

capa-tenso-seja-saber

Chegou para trabalhar.

Outro dia sem parar.

Nada a reclamar,

Apenas mais um rosnar.

Revoltoso e inconformado,

Presta-se à prece diária do lamento.

Anos a esperar por algo reformado.

Infinitas insistências.

Investimento mal remunerado.

Indecências.

Jogo jogado.

Apenas mais um dentre outros.

Um apelo desesperado.

Onde foi parar a ambição motivante?

Porque a apatia inebriante?

Faça mais por si mesmo.

Estude.

Entenda.

Aprenda.

Retire a venda.

Ambicione mais saber.

Dinheiro tem hora.

Que não venha dinheiro agora.

Que se dane!

Seja agora.

O tempo recompensa a quem o ignora.

Seja agora.

Seja!

Testando limites

Picture of sunset, Cotswolds, England March 2005

Até hoje nunca havia parado para pensar em meus limites. Não em limites físicos, mas sim em limites profissionais. Não quero expor velhas mazelas sobre os limites da capacidade humana, muito menos sobre os limites de aprendizado e interesse em renovar conhecimentos e inovar como profissional.

Hoje o fato de estar questionando meus limites, está diretamente ligado aos limites psicológicos. Entendam limites psicológicos como o limiar de situações em que simplesmente parece ter havido um bloqueio, paralisando não apenas ações. A paralisia fora maior. Me vi incapaz de acreditar na solução, ou melhor, de acreditar que poderia haver solução. Fui tomado por uma descrença sem limites, um pessimismo atroz. Perdi por alguns minutos a esperança.

Não cheguei a perder a cabeça, ufa! Mas tenho plena consciência de ter chegado a um extremo perigoso.

Acredito que a capacidade de gestão e de liderança vem da inteligência técnica mesclada com a emocional. Um dá suporte ao outro e no fim, a soma de ambos dita o quanto de resultados podemos entregar para a equipe, para a sociedade e para a empresa.

Hoje por um momento, parece que perdi o horizonte. Parece que passei a enxergar de forma turva. Simplesmente não conseguia processar a informação e transformá-la em ação. Não conseguia mais acreditar que poderia dar certo. Perdi a capacidade de sentir e de esperar que algo poderia ser diferente e que em algum momento eu poderia encontrar a saída para a situação à qual enfrentava.

Paralisado, segui em frente. Segui da melhor forma que pude, dando a melhor solução que encontrei no momento, mas continuava cético sobre a efetividade. Não conseguia acreditar que daria certo.

Em seguida, ainda meio atordoado, parei para refletir. O pessimismo se instaurou.

Percebi que estamos enfrentando uma crise de valores. Pregamos valores que não são compartilhados verdadeiramente pelas pessoas que convivem conosco em sociedade. Pressupomos a correta conduta dos líderes e das pessoas, mas somos assaltados a todo momento com denúncias de desvios de conduta e inadequações de conduta moral deles perante a o ambiente social.

Vejo a todo momento pessoas pensando exclusivamente em seus próprios interesses, comprometendo o ambiente e criando uma cultura egoísta e egocêntrica que trabalha exclusivamente para fomentar o favorecimento pessoal. O sentimento de grupo, de equipe ou de time fora substituído pelo projeto pessoal. As ambições não envolvem a coletividade, mas sim e apenas o individual. Nesse caminho a sociedade se esfacela e a cultura devia-se.

Afinal como tratar um ambiente de convívio social em que cada um pensa e age apenas com objetivos próprios?

Sim, este foi um duro teste dos limites psicológicos. Cansei desse falso moralismo. Cansei de ver os discursos falsos. Cansei das exceções, dos favorecimentos, dos jeitinhos. Cansei de ver de ouvir discursos ao estilo: “Faça o que eu digo, mas não o que eu faço!”.

Esse é o atual estágio das coisas por aqui. Críticas e indignações com governantes não passam de discursos vazios. A revolta contra corrupção, desonestidade, bandidagem, favorecimentos e tantos outros problemas, ofendem não por serem errados ou ilegais, nem ao menos por serem desvios morais graves. As ações e desvios morais indignam porque foram levadas a cabo pelo outro. No fundo a indignação é menos pelo desvio moral ou ilegal e mais por não participar ou tirar proveito dos favorecimentos e ilegalidades.

No fim, é tudo inveja! Nada de indignação, apenas inveja!

As vezes penso que se ao maior indignado fosse oferecida a oportunidade, ele se revelaria e veríamos neste momento apenas um retrato diferente do mesmo objeto. Então extasiados perceberíamos que a foto mudou, mas a imagem decodificada permanece a mesma. Mais do mesmo.

Enquanto isso continuaremos sendo testados. Sofreremos a todo momento com oportunidades para mostrar que a foto tirada de nós é diferente. Para isso precisamos retomar algo que hoje parece meio fora de moda e está em muitos casos caindo em desuso: a conduta moral ilibada.

Caminhada

Imagem

O tempo castiga-me.

Preciso escrever,
Tenho pressa.
Tenho pressa em me libertar.
Pressa de mudar,
Pressa!

O tempo castiga-me.

A rotina está a matar-me.
Envenenado sigo a estrada turva das escolhas que fiz.
Sinto algo errado em mim,
As reações começaram.
Tenho pressa.

Preciso escrever.
Impossível livrar-me das consequências.
Olhos alheios atentos a mim,
Conhecem-me.
Olhos alheios,
Não sabem do nada.

O papel castiga-me.

O veneno avança.
O tempo cobra o preço.
Não morrerei do veneno,
Nem terei minha vingança.
Tenho pressa.

O papel castiga-me.

Não há como salvar-me.
Culpado,
Intoxiquei-me.
O veneno não mata,
Castiga-me.
Tenho pressa!

Preciso escrever,
Tenho pressa.
Presa de chegar,
Lugar distante.
Pressa!

Só posso andar,
De que me vale apenas caminhar?
Correr não posso!
Já disse, ora!
Só andar.
Tenho pressa.

Como chegar?
Lugar distante.
O caminho,
Atroz.
A Estrada,
Turva.
Suportarei?

Tenho pressa e só.

Até quando?

Imagem

Ser humano é sentir.
Sentimento.
Ser humano é sofrer.
Sofrimento.
Ser humano é lamentar.
Lamento.
Ser humano é sentir as perdas.
Ser humano é viver sofrimento.
Ser humano é viver em lamento.
É durar,
Envelhecer e morrer.
Permaneço aqui enquanto muitos se foram.
Solidão.
Sofrer pelas perdas.
Desejo de viver demais.
Suportar demais!
Maldição!
Você seguiu seu caminho hoje.
Não deu tempo às despedidas.
Saudade.
Ser humano é viver em lamento.
Carrego em mim o peso Saudade das perdas.
O fardo hoje é a dor da partida.
Sigo em frente,
Solidão me pesa mais.
Lamento.
Sigo em frente,
Saudade pesa demais.
Sigo em frente,
Até quando?

De volta para casa

 

Nunca me perguntaram o porquê de ter começado a escrever aqui. Tão pouco me perguntaram o motivo de ter parado de escrever. Talvez tenha sido cegado por uma ilusão ingênua e imatura de que poderia escrever algo relevante ou minimamente interessante a alguém. Definitivamente esse não parece ter sido o caso aqui.

Mesmo assim algo de mórbido sempre acaba me trazendo de volta. Nada planejado, juro.

Antes porém que perguntem o motivo do retorno, das idas e vindas, da inconstância nas publicações… Antes que perguntem demais. Antes que transformem esse post num fardo, permito-me uma reflexão.

Talvez tenha ido longe demais. As vezes sinto que possa ter perdido o caminho de casa. Sinto que vaguei demais, que fiquei longe demais daquilo que realmente sou. Sinto tudo o tempo todo.
Sinto muito.

Certo ou errado? Não sei. Parece que nunca sei de nada. Não imagino ser isso um comportamento normal.

Não gosto de explicar-me a ninguém.

Não quero me explicar. Quero mesmo é realizar-me.

E aqui acredito ter chegado à razão que me faz estar sempre escrevendo, de ir e vir para cá, de não conseguir passar períodos muito longos sem pensar em estar aqui e escrever.

Talvez tudo tenha sido um delírio, um excesso de pretensão, outra esperança perdida. Poderia ter sido qualquer coisa, não sei. Posso estar ficando louco, mas talvez o motivo de sempre retornar a escrever aqui, seja meu inconsciente me dizendo que este sim é meu lugar.

Finalmente sinto-me em casa novamente. Eis que subitamente retorno, da mesma forma que um dia desapareci, sem aviso.

Odeio explicar-me.