Poesia

Seja saber

capa-tenso-seja-saber

Chegou para trabalhar.

Outro dia sem parar.

Nada a reclamar,

Apenas mais um rosnar.

Revoltoso e inconformado,

Presta-se à prece diária do lamento.

Anos a esperar por algo reformado.

Infinitas insistências.

Investimento mal remunerado.

Indecências.

Jogo jogado.

Apenas mais um dentre outros.

Um apelo desesperado.

Onde foi parar a ambição motivante?

Porque a apatia inebriante?

Faça mais por si mesmo.

Estude.

Entenda.

Aprenda.

Retire a venda.

Ambicione mais saber.

Dinheiro tem hora.

Que não venha dinheiro agora.

Que se dane!

Seja agora.

O tempo recompensa a quem o ignora.

Seja agora.

Seja!

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Caminhada

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O tempo castiga-me.

Preciso escrever,
Tenho pressa.
Tenho pressa em me libertar.
Pressa de mudar,
Pressa!

O tempo castiga-me.

A rotina está a matar-me.
Envenenado sigo a estrada turva das escolhas que fiz.
Sinto algo errado em mim,
As reações começaram.
Tenho pressa.

Preciso escrever.
Impossível livrar-me das consequências.
Olhos alheios atentos a mim,
Conhecem-me.
Olhos alheios,
Não sabem do nada.

O papel castiga-me.

O veneno avança.
O tempo cobra o preço.
Não morrerei do veneno,
Nem terei minha vingança.
Tenho pressa.

O papel castiga-me.

Não há como salvar-me.
Culpado,
Intoxiquei-me.
O veneno não mata,
Castiga-me.
Tenho pressa!

Preciso escrever,
Tenho pressa.
Presa de chegar,
Lugar distante.
Pressa!

Só posso andar,
De que me vale apenas caminhar?
Correr não posso!
Já disse, ora!
Só andar.
Tenho pressa.

Como chegar?
Lugar distante.
O caminho,
Atroz.
A Estrada,
Turva.
Suportarei?

Tenho pressa e só.

Até quando?

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Ser humano é sentir.
Sentimento.
Ser humano é sofrer.
Sofrimento.
Ser humano é lamentar.
Lamento.
Ser humano é sentir as perdas.
Ser humano é viver sofrimento.
Ser humano é viver em lamento.
É durar,
Envelhecer e morrer.
Permaneço aqui enquanto muitos se foram.
Solidão.
Sofrer pelas perdas.
Desejo de viver demais.
Suportar demais!
Maldição!
Você seguiu seu caminho hoje.
Não deu tempo às despedidas.
Saudade.
Ser humano é viver em lamento.
Carrego em mim o peso Saudade das perdas.
O fardo hoje é a dor da partida.
Sigo em frente,
Solidão me pesa mais.
Lamento.
Sigo em frente,
Saudade pesa demais.
Sigo em frente,
Até quando?

Solidão – Eu

Solidão que entra sem bater

Chega sem convite

Custa a sair

Quando vai embora, perda

Quando volta, entra sem bater

Chega sem convite

Custa a sair

Solidão

Quando vai embora, fica!

Se não volta, falta?

Vai e volta

Fica!

Falta?

Solidão?!

Entro sem bater

Chego convidado

Entro – Porta aberta

Solidão?!

Vou e volto

Fico

Solidão: Eu

E daí?

Sou composto de acordes musicais

Sou feito músico

Você não é músico!

Sou composto de acordes musicais

Sou inteiramente alma

Alma musical

Minha alma é composta de acordes musicais

Sou feito músico

Você não é músico!

Sou composto de acordes musicais

Sou músico!!!

Não!!!

Você não é músico!

Serei eu algo parecido com o nada?

Nada!

Sou composto de nada?

Músico!

Você não é músico!

Sou eu mesmo!

Sou feito músico!

Sou mais música

Sou Músico!

Você não é músico!

Não sou músico? Que importa isso?

Não sou músico

Escuto, emociono, sinto

Não serei eu músico?

Você não é músico!

Serei nada?

Nada não serei!

Serei eu mesmo!

Minha alma é composta de acordes musicais

E isso é o que basta

Você não é músico!

Cala-te!

Minha alma é composta de acordes musicais

Sou música, sou eu

Você não é músico!

Cala-te!

Não sou músico?

E daí?

Eu: nada em mim

Não estou no controle do dia

Não estou no controle de nada

Nada!

Acontece, surpreende e assusta

Toma-me de assalto!

Faço e participo de tudo, mas não estou em nada

Nada!

Tudo sei e nada posso, tudo sei e não sei de nada

Nada!

Aconteceu novamente

Fui tomado de assalto

Pega ladrão!

Levou mais de mim do que eu tinha para oferecer

Levou entusiasmo, vontade, motivações

Levou tudo e não sobrei nada

Nada!

Pega ladrão!

Quando foi que aconteceu? Não sei dizer.

Não sei descrever quem foi.

Não posso relacionar aquilo que fora levado.

Levou tudo, tudo fui levado.

Quem sobrei?

Sobrei nada, sobrei eu.

Eu… Um grande monte de nada.

O que aconteceu?

Tomaram-me de assalto!

Eu?

Quem sou eu?

Não sou o outro, não sou eu.

Tomaram-me de assalto, tudo levaram, nada sobrei.

Eu: um nada em mim.

Reflexo

Sozinho…

Aqui sozinho, vasculho-me.

Reflito, sinto, sofro.

Sozinho!

Vasculho-me.

Vejo-me.

O que sou?

Uma espécie de compêndio do mundo meu?

Meu mundo!

Um compêndio do meu mundo?

Meu mundo não é meu.

Meu mundo é o mundo dos outros!

Droga!

Serei eu um reles reflexo do mundo dos outros?

Serei eu um reles reflexo?

Sufocado, luto contra imposições.

Luto, contra convenções do mundo.

Vejo a mim, imagem refletida.

Janela escurecida pela noite.

Vejo a mim…

Serei eu um reles reflexo do mundo?

Serei eu um reles reflexo?

Não suporto-me!

Abro a janela e olho para o mundo.

Mundo? Que mundo!

Serei eu um reles reflexo do mundo?

Serei eu um reles reflexo?

Esse sou Eu?

Sim, esse sou eu.

Apenas e tão somente um reles reflexo do mundo.

Sim sou eu.

Apenas e tão somente um reles reflexo de tudo.